domingo, 5 de julho de 2015


ENTENDENDO A MECÂNICA DO CONFINAMENTO Verificamos que metade da área (peso) é ocupada por 60% de bois magros, enquanto a outra metade é ocupada por 40 % de bois gordos. Se o peso do rebanho cresce exponencialmente a uma taxa de 30% (fator 1.3), todo ano é abatido o correspondente a 30 % do peso total do rebanho (30 % de 2000 milhões de arrobas), ou seja, 600 milhões arrobas, que corresponde ao abate de 40 milhões de bois acima de 15 arrobas.

ÁREA OCUPADA Figura 2- percentagem de peso acumulada por bois magros (e gordos). No nascimento os bois magros acumulam 08.0 % No 1º período acumulam 18.4 % No 2º período acumulam 31.8 % No 3º período acumulam 49.4 % No 4º período acumulam 72.2 % No 5º período acumulam 100.0 % Figura 3 - percentagem acumulada por bois magros (inclui % do número de bois)

A MECÂNICA DA GLOBALIZAÇÃO Se quase toda a produção de bens industriais, manufaturados, automóveis, etc, já foi transferida para países em desenvolvimento, por qual razão produtos alimentícios elementares como carne continua centralizada e resistindo à mudança? O mundo todo perde quando mercadorias baratas como grãos continuam circulando livremente e consumindo combustível. A globalização da economia não é um fenômeno tão recente como imaginamos. Iniciou na década de cinqüenta quando as primeiras fábricas começaram a serem transferidas para países em desenvolvimento (bens industriais, manufaturas e automóveis). Tambem não ocorre simultaneamente e de maneira idêntica para todo tipo de bens. Primeiro, foram bens industriais, manufaturados, automóveis, etc. Em seguida, com as novas tecnologias da informação, foi a vez dos produtos tecnológicos. A globalização da economia privilegia os produtos mais valiosos, como bens industriais e tecnológicos, com pouco conteúdo material, cujo transporte tem incidência desprezível no custo final. Já com os produtos baratos e matéria prima não acontece o mesmo. A nova tecnologia da informação e da eletrônica eliminou barreiras geográficas e ideológicas; aproximou países, tornando o mundo pequeno e plano; foi instrumento capaz de produzir a cooperação de empresas transnacionais com países em desenvolvimento. Barateou o custo da comunicação e facilitou a vida de muita gente. O esforço de uns poucos desmistificou o uso do computador e Internet, tornando estes instrumentos acessíveis a todos, inclusive crianças; quando foi preciso produziu o entretenimento como substituto do emprego criado pelo industrialismo. Mas não gerou emprego nos países de origem. Foi nos países em desenvolvimento do leste asiático que encontrou mão de obra barata capaz de aumentar a reprodução e difusão da tecnologia nova. Mas, com a intensificação das trocas, as mercadorias circularão mais e, para que continuem circulando, o gasto de energia será maior. O transporte, como outras coisas, não pode ser virtual. Essas outras coisas envolvem atividades humanas relacionadas com a vida, no sentido mais estreito da palavra, sua existência animal e primitiva, como alimentação, aquecimento, circulação, transporte. Atividades biológicas do ser humano concreto exigem gasto de energia que não pode ser suprida apenas pela tecnologia da informação e eletrônica. A globalização se dará de outra forma: capitais e tecnologia, desenvolvida nos países industrializados, buscarão a cooperação de países em desenvolvimento, com abundância de terras aráveis, matéria prima e potenciais hidroelétricos. Aqueles acabarão aderindo a esta mudança tendo em vista o desperdício de combustível com o transporte de mercadorias baratas que afeta o mundo todo.

TRANSPORTE DE INSUMOS BARATOS Algo semelhante ocorre com os outros insumos básicos, cujo exemplo mais característico é o minério de ferro, uma das mercadorias de mais baixo valor. Estados Unidos e China persistem na produção de aço com carvão mineral, transportando milhões de toneladas. Se a produção de aço fosse transferida para o Brasil o impacto global seria menor e o transporte, que consome combustível, seria imensamente menor. --como? Comprando o produto acabado, como é o caso da carne. O Brasil encontra alternativas promissoras na produção de metais valiosos como alumínio, zinco e estanho, os quais utilizam energia hidroelétrica, abundante na Amazônia. No entanto exporta minério, que abusa do transporte. Em resumo: o confinamento de bois é uma atividade mais elaborada que permite a produção local, de forma descentralizada e com agregação de valor dos dois produtos, grãos e carne. Aliado a produção de alimentos e combustíveis alternativos integra inúmeras atividades em uma mesma área que se complementam, pela necessidade de rotação de culturas: cultivo e processamento industrial de alimentos, reforma de pastagens, criação de gado, cultivo grãos e alimentos e produção de biocombustíveis de forma descentralizada e local, por grandes e pequenos produtores em regime de parceria. Evita operações intermediárias de transporte de mercadorias de baixo valor em meios gastadores de energia. Em lugar de se confrontarem, como mutuamente exclusivos, os três objetivos podem ser atingidos simultaneamente por ser complementares em uma mesma área, disponibilizada pelas áreas de pastos degradados. Ao mesmo tempo a floresta seria preservada com a eliminação gradativa da criação ineficiente em regime extensivo. A solução não está na melhora do transporte, mas na sua eliminação. Toda a infra-estrutura dos transportes -- que só vai servir a exportação de produtos primários (grãos e minérios) -- pode se tornar ociosa quando bens acabados forem produzidos localmente (carne e aço). Quando isso acontecer, os bens mais valiosos, com pouco conteúdo em material, serão transportados, para os quais a infra-estrutura atual é suficiente.

ENERGIA MECÂNICA Produzir energia para aquecimento é fácil, difícil mesmo é produzir energia mecânica para a movimentação de máquinas industriais. A maneira mais eficiente e barata de atingir este objetivo é a usina hidroelétrica. Os rendimentos elevados da transformação permitem a produção e transporte de maneira mais econômica do que aquela utilizada por outros meios. Entretanto, o potencial disponível é pequeno, cerca de 700 mil MW em todo o mundo . DEMANDA E DISTRIBUIÇÃO DE ALIMENTO No que respeita à oferta de alimento, o custo do transporte e distribuição são os fatores decisivos: A incidência do transporte no custo final do grão produzido é 10 vezes maior do que a incidência do transporte no custo final da carne. Custa mais transportar grãos do que produzir. Em termos comparativos, seria semelhante a exportar cana para produção de álcool em outros países. O Brasil que abastece um terço da carne bovina negociada no mundo com um produto de alta qualidade, não precisa, necessariamente exportar grãos para produzir carne em outros países. Não é mais fácil produzi-la aqui mesmo, localmente? Raciocinando globalmente: não é mais eficiente exportar carne de boi confinado do que exportar grãos com os quais os bois se alimentam durante toda a sua vida? Em termos de agregação de valor a possibilidade da criação de gado confinado é tentadora: imaginem a grande vantagem de exportar carne com os grãos já processados dentro do boi confinado e, sobretudo, deixando por aqui todo o resto (50%). Os antigos já sabiam disso, ao dizerem: “O melhor modo de conservar milho barato é em sacos de couro, de porcos (bois) vivos”.

Qual é o segundo temor dos diversos países e que tambem já ocorreu? É o de serem privados do fornecimento de grãos para produção de carne nos seus próprios países. De fato, é um temor genuíno, porque a produção de grãos nos países em desenvolvimento é um dos processos mais gastadores de combustíveis em face da grande quantidade de mercadorias transportadas. O mundo como um todo está transportando demais: São navios, trens e caminhões repletos de grãos e matérias primas baratas, em grande quantidade. A maneira óbvia de evitar que os gastos de combustíveis ocorram é evitar os transportes inúteis. Como? Descentralizando a produção de carne, produzindo-a nos países produtores de grãos. Pode parecer um desejo nacionalista, mas não é bem assim: É o mundo todo que está gastando combustível de maneira inadequada. O terceiro temor é o de que países atrasados gastem de maneira predatória os recursos da natureza, da mesma forma que os industrializados o fizeram no passado. Isto realmente ocorre em países que queimam florestas para aquecimento e para criação extensiva de gado. Como evitar que isto aconteça? Uma alternativa promissora é o cultivo de florestas. Outra consiste na redução do rebanho, uma vez comprovado que a carne bovina não é uma forma adequada de suprimento de alimentos protêicos, quer na forma extensiva como em regime de confinamento. Como se pode depreender, consumo e produção se casam perfeitamente, evidenciando claramente a tendência de queda no consumo de energia nos países industrializados. A forma de uso inadequado de combustível é para acionamento de veículos, o que leva a uma constatação surpreendente: a forma da transformação de energia é ineficiente, pois, o rendimento dos motores de veículos (ciclo Otto e Carnot) é muito baixo. Em outros termos: os motores atuais dos veículos são arcaicos: produzem mais calor do que trabalho mecânico. Precisam ser reformulados, ou então, os veículos serem abandonados como forma de locomoção. Entretanto, o consumo de combustível não depende do número de carros, mas das viagens. Alem de o consumo ser decrescente nos países industrializados, o carro é produzido para ficar parado, porque seus donos não têm tempo para deles se utilizarem (600 milhões nos EE.UU). Quando o número de carros por habitante se aproxima de um, sua utilidade como meio de locomoção decresce. O que realmente pesa no consumo de combustível é o transporte pesado.

ENERGIA de AQUECIMENTO Produzir energia para aquecimento é tão fácil quanto produzir alimento energético. Todas as formas de produção de energia disponíveis atualmente, com exceção da energia hidroelétrica e a eólica, passam, de uma forma ou de outra, pela queima de algum combustível. Nem a fusão e fissão nuclear -- esperanças do futuro – escapam do processo rudimentar e ineficiente da transformação de energia de aquecimento em energia mecânica de movimento. As implicações deste fato são cruciais para o preço da energia, preço dos combustíveis, preço dos alimentos, todos inter-relacionados, e da forma como serão distribuídos os encargos entre os países industrializados e emergentes. Porque o etanol é uma boa alternativa? Quase todo o consumo de energia nos paises industrializados está concentrado, primordialmente, no aquecimento de residências e acionamento de veículos. Apenas 8% é consumido em outras atividades, incluindo máquinas de acionamento industrial. Atualmente, o suprimento de energia é, fundamentalmente, de origem térmica, pois, todo o potencial hidroelétrico disponível já foi utilizado. Podemos dizer, então, que toda produção de energia utiliza combustível, seja para aquecimento direto, seja para acionamento de veículos. Ora, da mesma forma que é fácil produzir alimentos energéticos, tambem é fácil produzir energia para aquecimento: basta queimar combustível diretamente. A queima direta de combustível é a forma correta de produzir calor, sem passar pelas fases intermediárias que violam o “segundo princípio”. Países industrializados não utilizam os anacrônicos chuveiros elétricos, ainda utilizados no Brasil: seria um absurdo tecnológico. A melhor forma de utilização neste caso é o aquecimento solar. Resumindo: Se quase toda energia é de aquecimento, suprida pela queima de petróleo, a melhor forma de substituir petróleo é queimando um combustível semelhante, isto é: da mesma origem. Se o petróleo tem origem em florestas decompostas, o combustível substituto deve ser procurado em florestas atuais. Se aproveitada integralmente, inclusive o bagaço, a cana é um produto energético altamente produtivo. Assim, tambem florestas cultivadas poderão ser fontes energéticas eficazes se for desenvolvida tecnologia apropriada de transformação da biomassa em combustíveis líquidos. O etanol substitui a gasolina do petróleo, mas pode vir a substituir tambem o óleo combustível, atualmente usado nos países de clima frio. Não existe razão alguma para que seja condenado. È a melhor solução para o momento.

CRISE DE ENERGIA: AQUECIMENTO E MOVIMENTO O valor da energia depende fundamentalmente das diferentes formas como produção e consumo se processam: a produção e consumo de energia podem ser classificados em duas grandes categorias: energia de aquecimento, cuja produção depende da queima de combustível; energia de movimento mecânico, cuja produção depende tanto da queima de combustíveis (termoelétricas com rendimento de 30%), quanto de potenciais hidráulicos (hidroelétricas com rendimento de 90%). Ambos, produção e consumo são regidos pelo segundo princípio da termodinâmica, que em termos simples quer dizer: “É sempre mais fácil produzir energia de aquecimento (residências) através a queima de combustível, diretamente, do que produzir energia mecânica (máquinas)”. Em outras palavras: energia potencial hidráulica se transforma em energia elétrica de forma direta e eficiente, enquanto a energia de aquecimento só é eficiente para produzir calor. A primeira é nobre e a segunda vulgar.

O PESO DO TRANSPORTE Outro fator, relacionado com o anterior, que não tem sido levado em consideração é o peso excessivo do transporte de mercadorias baratas, como grãos, incidentes na composição do custo do principal alimento requerido pelos países emergentes: a carne bovina. O rebanho brasileiro, 210 milhões de cabeças é maior do que a população, ocupando 200 milhões de hectares. Se os outros países utilizassem o mesmo processo extensivo (um hectare por habitante) estariam utilizando sete bilhões de hectares e certamente 14 bilhões quando a população dobrasse. Como resolvem? Alguns que têm áreas de cria, Importam grãos e confinam bois. Mesmo assim a área de pastagem continua grande, concorrendo com a produção de alimentos energéticos. Daí a grande importância dos grãos na alimentação de animais e da carne para alimentação humana. A carne se tornou o alimento mais requerido no mundo todo, especialmente agora, em razão do maior crescimento dos países em desenvolvimento. Entretanto, é o que mais requer energia e o que mais agride o meio ambiente ao ser produzido. Os demais alimentos fazem parte de um “mix” (arroz, milho, mandioca, trigo, soja, etc.) que são específicos de cada região e os países em desenvolvimento, maiores produtores e consumidores (China, Brasil e Índia), já os produz localmente, cada um especialista nos produtos que consome. Asiáticos são especialistas na produção de arroz; países europeus e americanos produzem trigo em grandes quantidades; mexicanos e brasileiros produzem milho e mandioca, etc. Depois da revolução verde, as questões alimentares crônicos que afligiam países populosos como China e Índia foram resolvidas, no que respeita a produção de alimentos energéticos. Como conclusão deste capítulo: a mudança de hábitos e valores mais saudáveis de comer carnes brancas (de que fala o especialista Paul Robert a seguir), não é apenas de caráter de saúde, recomendada pelos médicos, mas tambem de natureza econômica. De fato, o consumo anual de 100 quilos por habitante nos Estados Unidos chega a ser um exagero, que só produz obesidade. Hábitos e valores dependem da cultura.

TERRA PARA PRODUÇÃO DE COMBUSTÍVEL Ainda segundo os cálculos aritméticos do professor Cerqueira Leite, “para substituir todo o combustível fóssil consumido hoje por etanol, incluídas tecnologias que aproveitassem integralmente todo o resíduo linho-celulósico da produção de álcool, cereal e madeira, seriam necessários 400 milhões de hectares”, tal a facilidade na produção da energia de aquecimento. Essa é a razão do sucesso do etanol brasileiro que não é devidamente compreendida pelos representantes dos países industrializados. A cana é um planta energética por excelência. A produtividade anual média no Estado de São Paulo é de 85 toneladas de cana por hectare, enquanto que a produtividade do milho é de 10 toneladas e a da soja é de 4 toneladas por hectare. Tudo na cana é transformável em combustível, enquanto a soja, que é uma oleaginosa, pequena quantidade de energia pode fornecer. É por essa razão que não vale a pena extrair combustível de grãos de soja (ou de grãos de milho) “Um bom substituto para o petróleo deve ser encontrado naquilo que constitui a sua origem que são as florestas e plantas energéticas”. Argumentos surrados, utilizados pelo governo brasileiro, de que o etanol não concorre com a produção de alimentos não são bem compreendidos pelos representantes dos países industrializados. Não precisa explicar, por exemplo, que a área de cana é inferior a 2% da a área de pastagem e inferior a 10% daquela destinada à produção de alimento. A explicação é óbvia, para qualquer físico, medianamente informado.

O grande temor, manifestado diversas vezes nos organismos internacionais (FAO) é não existir área suficiente no mundo para os diversos países alimentarem animais em seus territórios como produtores de carne. Nesse particular, têm razão, posto que os limites sejam bastante estreitos: 400 milhões de Hectares para alimentos energéticos; 400 milhões de Hectares para alimentar animais que produzem alimentos protêicos e mais 3500 milhões de Hectares para criação de bois. Têm receio de um boicote, semelhante ao proposto na Argentina, restringindo a exportação, o que tornaria mais caros os grãos. Em suma, temem a formação do “cartel dos grãos”, semelhante ao da OPEP. Bem, as preocupações não terminam aí. Este aspecto abordado constitui apenas á metade do problema geral, cuja outra metade se refere ao elevado custo do transporte de mercadorias baratas, a ser tratado no próximo capítulo.

A tabela 5 mostra que mesmo reduzindo o consumo anual de carne bovina para apenas 10 kg por habitante a área de cria permanece elevada, apesar da redução de 3100 milhões de hectares na área total. REDUÇÃO DA ÁREA OCUPADA COM CONFINAMENTO EM HECTARES 1º caso 2º caso Consumo de 40 kg/hab/ano Só boi Frango, porco e boi. Energéticos 400 400 Grãos 800 400 Cria de bois 7000 3500 Total 8200 5100 Tabela 5 - Área ocupada com redução do consumo de carne bovina Conclusão: A carne de boi é proibitiva como fonte de alimento protéico, mesmo nas quantidades ínfimas de 10 Kg / hab/ ano, o que corresponde a um bife de 30 gramas diárias, menor que um “Danoninho”. A produção de carne bovina deve ficar restrita (localmente) àqueles países que têm terra suficiente seja para cria de bovinos como para a produção de grãos. Os demais países, com insuficiência de ambos os fatores, não têm alternativos senão importar a carne pronta de outros países.

O confinamento de bois desocupa 2200 milhões de hectares líquidos, ou seja, troca área de pastagem para engorda (3000) por área de cultivo de grãos (800), mas, a área de cria permanece alta e acima do disponível. Como existe pouca área disponível no mundo para cria de gado, é possível que o boi perca importância para frangos e suínos como fonte de alimento protéico. Com a seleção de linhagens, o mais provável é que venham a ser criado o boi precoce, cujo objetivo é reduzir o tempo de permanência de bois no pasto. Abaixo é feito um cálculo das necessidades de terra para o mesmo suprimento de alimento protéico, de 40 Kg anuais / hab, agora composto por 20, 10 e 10 Kg, respectivamente, de frango, porco e boi. NECESSIDADE DE GRÃOS NECESSIDADE DE GRÃOS ÁREA OCUPADA DESCRIÇÃO Das pessoas Dos animais Total Cria Total Tipo / consumo Cereais carne Grãos Grãos Pastagens Anual por hab --Kg 200 40 200 400 Taxa de conversão: Frango...2.5 Kg /Kg 20 50 100 Porco.....5.0 Kg /Kg 10 50 100 Boi.......10.0 Kg /Kg 10 100 200 Consumo Anual da População Bilhões toneladas 2 (0.40) 2 4 Frango (0.2) 0.5 1 -- Porco (0.1) 0.5 1 -- Boi (0.1) 1.0 2 3500 Área necessária Milhões de hectares 400 400 800 3500 5100 Tabela 4- consumo anual de 200 Kg de cereais, 20 Kg de frango, 10 Kg de porco e 10 Kg de boi.

CRIAÇÃO CONFINADA OU EXTENSIVA Área necessária para um consumo humano anual por habitante de 200 kg de cereais e 40 Kg de carne bovina: Tipo de criação Criação confinada Criação extensiva Cereais 400 400 Grãos 800 Cria 7000 7000 Engorda --- 3000 Total 8200 10400 Tabela 3 - Comparação entre atividade extensiva e confinada.

NECESSIDADE DE GRÃOS E TERRA DISPONÍVEL NECESSIDADE DE GRÃOS E TERRA DISPONÍVEL DESCRIÇÃO PESSOAS BOIS BOIS + PESSOAS CRIA DE BOIS ÁREA TOTAL Consumo / tipo Cereais Carne Grãos Grãos Pastagens Consumo anual por habitante em kg 200 40 400 600 Anual para a população Bilhões de toneladas 2 (0.4) 4 6 Área de cria 7000 Milhões de hectares 400 800 1200 7000 8200 1,6 bilhões de bois Tabela 2- Necessidades alimentares e terra disponível. (só carne bovina)

“BOI EM PÉ, TRADIÇÃO DE MAIS DUZENTOS ANOS” Os Estados Unidos utilizam um artifício inteligente: subsidia grãos, a custa dos contribuintes. Neste caso perdem dinheiro, caso o excedente fosse exportado. Entretanto usam grãos subsidiados para confinar bois. Com o alto valor agregado da carne (seis reais), voltam a ganhar dinheiro. Unidades de confinamento para 200 mil bois são práticas correntes. A busca de valor agregado pode tambem ser um objetivo brasileiro, limitando a exportação de grãos, o que não é bem visto pelos países importadores. Como o preço dos grãos sobe mais depressa do que a carne e como o confinamento não é viável no Brasil, uma alternativa promissora para evitar pastagens degradadas é a exportação da tecnologia de bois precoces, na forma de “boi em pé, na qual o país tem tradição de mais duzentos anos”. Nesta forma, o boi precoce é exportado vivo junto com os grãos e alimentado durante a viagem.

TERRA PARA PASTAGENS A criação de gado de forma extensiva é utilizada por países com grandes áreas geográficas como Brasil, Estados Unidos, Argentina e Austrália. O rebanho brasileiro supera a população e ocupa 200 milhões de hectares (um animal por habitante) Tudo se resume em uma questão de eficiência do processo de transformação, conhecido como “taxa de conversão” do grão em carne. Pequenos animais não ruminantes, que constituem a base da alimentação de muitos países, como frangos e suínos consomem pouco: de 2 a 5 Kg de ração para cada Kg de carne produzida, respectivamente. Estes animais não requerem áreas de criação, pois são confinados desde o nascimento. Bois consomem muito mais: de 8 a 10 Kg de ração para a mesma quantidade de carne produzida. Biologicamente, o complexo organismo desses ruminantes é adaptado para o consumo de gramíneas, por isso requerem grandes áreas de pastagem para ficarem circulando, por até quatro anos, pisoteando e defecando sobre seus próprios alimentos, e desperdiçando energia vital. Até três anos, tudo o que consomem de energia é para eles próprios, para crescerem e viverem simplesmente. Entretanto, contrariamente a sua própria natureza, foram tambem ensinados a comer grãos em confinamentos, fato que, em suma, gerou toda a sorte de problemas mencionados.

DISPONIBILIDADE DE TERRAS PARA CRIA DE GADO. A utilização da carne bovina como fonte de alimento protéico se tornará de tal forma proibitiva que acabará em privilégio de uns poucos países como Brasil, Argentina, Austrália e Estados Unidos, que ainda têm áreas de cria de gado não ocupadas com outras atividades mais eficientes. A maior limitação decorre da necessidade de um rebanho de 1,6 bilhões de cabeças, insuficiente para um consumo democrático de apenas 10 Kg / habitante ano, com a população final da humanidade em 10 bilhões de habitante. Nem mesmo a população atual de seis bilhões pode ser contemplada. A limitação é física, em termos de área, seja em regime extensivo ou confinado, pouco importa. É o processo que se tornou inadequado: o ser humano criou um animal para produzir alimento protéico com o qual não pode conviver, porque é um concorrente na ocupação do território. A criação extensiva de bois continuará, enquanto existirem áreas montanhosas inadequadas para qualquer outro tipo de uso da terra. Mas, certamente a carne bovina como alimento protéico se tornará uma iguaria, possível somente àqueles países com disponibilidade de terras para cria de gado.

PEQUENO HISTÓRICO DA CRIAÇÃO DE BOIS “Um grande problema” foi criado no momento histórico em que os ocidentais decidiram expandir a criação dos grandes ruminantes para a produção e aperfeiçoamento da produção de carne bovina como alimento protéico. Se tivessem permanecido como ruminantes talvez os problemas já tivessem encontrado uma limitação natural, pela falta de recursos. Podemos dizer que a criação de bovinos seja invenção ocidental, iniciada na Europa e se alastrando depois pelas colônias da América e Oceania, durante o período do industrialismo. Os holandeses inventaram a vaca holandesa. Os ingleses criaram as linhagens de alta produção de carne (Aberdeen-Angus). O rebanho brasileiro (Zebu) tem sua origem na índia, que praticamente não consome carne, por ser animal sagrado. Países do leste asiático não têm rebanhos onde a pesca é sua fonte principal de alimentos protéicos. Países populosos do leste asiático consomem carne suína, aves e frutos do mar. Países de clima frio têm dificuldades para manter rebanhos.

CRISE DE ALIMENTOS: TERRA PARA PRODUÇÃO DE GRÃOS E CARNE. A produção de carne é o elemento chave de toda a questão, por exigir terra, tanto para a cria gado, como terra para a produção do grão, necessário para o confinamento de bois, que são os principais concorrentes da produção de alimentos e cana. Só para se ter uma idéia: o rebanho brasileiro de 210 milhões de cabeças supera a população e ocupa 200 milhões de hectares (um boi médio por habitante). Conquanto as necessidades protéicas do ser humano sejam cerca de cinco vezes inferiores as necessidades energéticas, ou seja, 40 kg anuais por habitante, as necessidades de grãos para os bois conseguirem esta produção, são deis vezes maiores, quando confinados, ou seja: o dobro da quantidade para fim energético. O limite estabelecido pela FAO de 1,5 bilhões de hectares talvez seja atingido: A preocupação desse órgão das Nações Unidas é genuína. Como conclusão: não é a produção direta de alimentos energéticos para o ser humano que traz preocupação, mas a produção indireta de grãos para os bois que comem dez vezes mais. A produção de um alimento protéico, como a carne bovina, requer transformações químicas e orgânicas muito elaboradas, de rendimentos muito baixos, característicos da vida.

CRISE DE ALIMENTOS: TERRA PARA ALIMENTOS ENERGÉTICOS. Quais alimentos? Cereais ou carne? Parece intuitivo que produzir alimentos energéticos é tão fácil como produzir energia para aquecimento. Segundo cálculos aritméticos do professor R. C. Cerqueira Leite a quantidade terra necessária para suprir as necessidades alimentares energéticas da humanidade é de apenas 400 milhões de hectares, com a população de 10 bilhões (Folha, 6/1/2008). Entretanto, produzir alimentos protéicos, como carne bovina, é muito mais complicado: exige a criação e engorda de bois que consomem, obviamente, 10 vezes mais grãos do que os cereais consumidos pelo ser humano. Se a cria e engorda do rebanho bovino é o principal concorrente da produção de alimentos e combustíveis, a providência natural seria a sua limitação, com abate de animais precoces ou a substituição por animais menores, não ruminantes. Tudo isso já vem acontecendo: frangos de trinta dias, porcos de três meses, bois de dois anos, etc, como resultado do desenvolvimento de novas linhagens e novas tecnologias da biogenética. A terra pode ser utilizada de quatro maneiras principais: cultivo de alimentos energéticos para o homem; cultivo de grãos para animais; pastos de criação de bovinos e cultivo de plantas para a produção de combustíveis. Países que dispõem ainda de áreas agricultáveis como Estados Unidos utilizam seus recursos de maneira eficiente subsidiando a produção de grãos para criação intensiva de bois em confinamento e, assim, evitar o excessivo transporte de mercadorias baratas. Confinamento de 200 mil bois, em uma única unidade, é prática comum. Ao contrário do que muitos pensam, não produzem grãos subsidiados para exportação, o que seria antieconômico. O Brasil tambem subsidia produtores de grãos através de juros negativos.

CRISE DE ALIMENTOS OU CRISE DE ENERGIA Nos organismos internacionais a atual crise dos alimentos é tratada com tamanha superficialidade que leva a suspeita de ignorância ou certa dose de má-fé. Causa estranheza que cálculos simples, utilizando apenas aritmética, não sejam compreendidos pelos cultos chefes de estado que, afeitos a decisões políticas de magna importância, bastaria a eles uma simples consulta a qualquer cientista para ter a ajuda imediata: “as duas coisas estão relacionadas. Entretanto, é muito mais fácil produzir energia de aquecimento e alimentos calóricos (cereais, legumes e frutas) do que alimentos protéicos (carne)”. Quando a atual crise das comodities é abordada genericamente nos organismos internacionais, os representantes dos diversos países utilizam a expressão “crise dos alimentos” -- um argumento diplomático mais visível e comovente, contraposto ao etanol -- para se referirem ao grão, milho e soja, que importam para alimentar animais. Ora, o grão não é, tipicamente, um alimento do ser humano. Ele os consome, em quantidade significativamente menor que os animais, é claro, na forma de cereais e em conjunto com outros alimentos energéticos. Guardadas as proporções, os animais é que são os grandes consumidores de grãos, especialmente os bovinos. Soja e milho concentram 82.4% da produção agrícola brasileira de 2008. Apenas 7.6% correspondem aos outros alimentos energéticos (Arroz, trigo, feijão, batata, mandioca e outros). Na verdade o mundo não carece de alimentos energéticos, mas de alimentos protêicos como a carne, especialmente a carne bovina, que não consegue produzir em quantidade satisfatória por insuficiência de terra combustível. Se o temor é o de perder os fornecedores de grãos, isso já está acontecendo: ao melhorarem de vida, os asiáticos desejam pelo menos um décimo do consumo dos países industrializados (100 kg anual por habitante nos Estados Unidos), e não apenas alimentos energéticos como arroz, trigo e animais exóticos. Paradoxalmente, os representantes dos países industrializados, presumivelmente mais cultos, parecem não levar muito a sério as questões ambientais (Estados Unidos, China) enquanto os representantes dos países em desenvolvimento são os que mais se preocupam. Em plena era da globalização, com as mudanças ocorrendo, problemas cruciais como “Aquecimento Global” e “O Fim dos Recursos Mundiais” - que são problemas de todos, mas não são de ninguem – encontra um tratamento paroquial, cada país buscando a solução de curto prazo para si próprio, que atenda seus interesses imediatos. Países industrializados parecem mais preocupados com o fim dos recursos mundiais, de curto prazo, do que com as mudanças climáticas, cujos efeitos são anunciados para o fim do século. Seu maior temor é de que países em desenvolvimento venham a utilizar energia da forma predatória, como eles o fizeram no passado e, com isso, tenham que compartilhar recursos escassos como petróleo para aquecimento de residências e, grãos para sustentar a produção de alimentos protêicos em seus países (carne).

COMBUSTÍVEL PARA ALIMENTOS O custo do transporte, até agora visto como uma variável independente, não incide igualmente em todos os setores. Incide pouco sobre produtos tecnológicos, mesmo com preços elevados do petróleo. Já o mesmo não acontece com os produtos básicos. No setor primário, o custo da produção e transporte de insumos básicos é fortemente dependente do combustível. Nem a globalização da economia se processa de maneira idêntica e simultânea nos diversos setores da economia, privilegia os produtos mais valiosos. No estágio atual, de fato, o processo de globalização vem ocorrendo, sem obstáculos, em setores de serviços e de alta tecnologia. Componentes tecnológicos valiosos podem ser reunidos e redistribuídos de e para diversos países, quase sem custos. São transportados por aviões, alguns deles virtualmente, como softwares. No setor primário, entretanto, a globalização encontra resistência pelo elevado custo da produção e transporte de mercadorias baratas. Necessidades biológicas como alimentação, aquecimento, circulação, transporte exige gasto de energia que não pode ainda ser suprida por alta tecnologia. Em outras palavras, Energia e transporte não podem ser virtuais. Até recentemente parecia que a globalização do setor primário fosse seguir os mesmos passos, isto é, insumos básicos de baixo valor como grãos poderiam ser transportados ao redor do mundo para alimentar animais de países industrializados e alguns emergentes. Mas, sucessivas altas no preço do petróleo encareceram a produção e o transporte dos grãos, acompanhando o preço do petróleo. Até os subsídios, praticados pelos países industrializados, se tornaram inócuos, como medida capaz de conter a valorização das comodities agrícolas. É claro que a globalização da economia no setor primário vai seguir um caminho distinto, porque a livre circulação de mercadorias baratas ao redor do mundo intensifica o uso de combustível. Até o petróleo requer combustível (o próprio petróleo) para ser produzido e distribuído. Cotado a 120 dólares o barril na bolsa de Nova York, é uma comodity como outra qualquer, cujo preço, 74 centavos de dólar o litro, é pouco superior ao da soja, cotada a 54 de dólar o quilo na bolsa de Chicago. As novas descobertas em mar profundo dificilmente conseguirão produzir petróleo a um custo inferior ao preço atual.

Crescimento per cápita do consumo de energia e PNB em % OCDE EE.UU JAPÃO Energia -6 -12 -6 PNB 21 17 46 Tabela 1 - Crescimento do consumo de energia e PNB per cápita nos países industrializados no período 1973 a 1985.

COMBUSTÍVEL PARA AQUECIMENTO O combustível é especialmente valioso porque é a forma mais eficaz de produzir aquecimento, adequado ao perfil do consumo dos países industrializados que está concentrado na demanda por combustíveis para aquecimento e transporte. Estes utilizam fundamentalmente o petróleo, mas poderiam utilizar etanol produzido nos países tropicais a preços concorrentes. Gerar calor por meio de usinas termoelétricas, inclusive nucleares, é um desperdício como mostra a figura 1. Mas, nada impede que venha a ser utilizada, como recurso extremo, apenas terá custos maiores.

O transporte pesado requer combustível em todos os países, industrializados ou não. Mas, a demanda no futuro será diferente para cada tipo de país. Nos países industrializados a demanda é decrescente, enquanto nos países em desenvolvimento tende a aumentar (inclusive automóveis). Com a população estabilizada e o consumo per cápita de energia em declínio, países industrializados não são mais os responsáveis pelo aumento da demanda de energia como mostra a tabela 1. O transporte pesado perde importância, numa economia desmaterializada, baseada em serviços e o consumo de automóveis é decrescente por ter atingido o nível de saturação física, com mais de um automóvel por habitante. Todo aumento populacional ocorrendo nos países em desenvolvimento estes é que serão os grandes consumidores de combustível para a produção e transporte de alimentos, porque são os que mais crescem. Combustível líquido (da cana e madeira) substitui gasolina. É útil para países em desenvolvimento, cujo consumo em automóveis cresce. Mas, não substitui diesel e óleo combustível. Não resolve o problema dos Países industrializados, mas libera gasolina para aquecimento e para o transporte por caminhões leves na distribuição, que desafogam o trânsito nas grandes cidades. As recentes aplicações de outras formas de energia para acionamento de veículos (carros elétricos) têm pouco significado para países industrializados: apenas trocam várias fontes ineficientes descentralizadas (o motor do automóvel) por uma única fonte centralizada, igualmente ineficiente (termoelétrica). Basta lembrar que hidrogênio e termoelétricas gastam tambem combustível. Mas, beneficiam enormemente os países em desenvolvimento que dispõem de hidroelétricas e do etanol.

FONTES X DEMANDAS Vejamos quais seriam as escolhas no sentido de adequar as fontes de suprimento às demandas de cada país no futuro. É claro que os países industrializados utilizarão combustíveis para aquecimento direto preferivelmente as termoelétricas e hidroelétricas tendo em vista a sua demanda concentrada principalmente no aquecimento em 58%. Tambem é claro que países em desenvolvimento utilizarão energia elétrica (hidroelétricas e termoelétricas) para acionamento industrial considerando que a demanda de acionamento corresponde a 50%. Nos países em desenvolvimento que têm potenciais hidroelétricos ainda inexplorados (Brasil, China) a energia elétrica é usada adequadamente, conquanto os potenciais disponíveis sejam pequenos, mas suficientes para atender a demanda de seus próprios países por décadas (da ordem de 700 GW). “A energia hidroelétrica e a biomassa, promissora fonte de energia renovável responderam pela metade da energia primária usada nos países em desenvolvimento em 1980. Contudo, as fontes renováveis poderiam dar apenas contribuições relativamente limitadas para o suprimento de energia requerida pelo mundo todo. Apesar de os países em desenvolvimento terem explorado só sete por cento de seus recursos hidroelétricos, o potencial econômico total desses recursos é de apenas 700 GW”. (José Goldemberg e outros).

Muitas das tecnologias industriais, atualmente comercializadas no Norte, são intensivas em capital que não se ajustam aos países do Sul. As vantagens relativas de recursos naturais são muito diferentes. Países em desenvolvimento têm a fortuna de possuir recursos hidroelétricos inexplorados de custo baixo, enquanto os países industrializados têm de fazer uso da energia térmica – mais dispendiosa – para aumentar a capacidade elétrica. A biomassa é uma fonte promissora de combustíveis químicos para muitos países em desenvolvimento, requerendo tecnologias descentralizadas de desenvolvimento muito diferente das estratégias centralizadas de países ricos em combustível fóssil (José Goldemberg). Indústrias que utilizam calor de processo são proibitivas no Norte. A nova tecnologia da biogenética favorece o cultivo de florestas artificiais nos países tropicais produzindo ganhos de produtividade na siderurgia e indústria cerâmica e de refratários. O bagaço da cana pode ser queimado em cerâmicas.

Países industrializados e países em desenvolvimento estão descompassados no que concerne ao desenvolvimento industrial. Nos países industrializados, a maior parte das inovações está ocorrendo nas áreas de eletrônica, tecnologia da informação, comunicações e outros campos de alta tecnologia. A demanda mudou de produtos intensivos em materiais para aqueles caracterizados por elevada relação entre valor agregado e conteúdo de material. A estagnação na demanda de materiais básicos tem criado um clima desfavorável nas indústrias a eles relacionadas, apesar dos aumentos do preço da energia na última década terem tornado obsoletos muitos investimentos nestas indústrias. Assim, em indústrias de importância crucial para estabelecimento de uma infra-estrutura o ritmo de inovação no Norte não é suficientemente rápido para satisfazer as necessidades do Sul. O rápido crescimento potencial da demanda de materiais básicos no Sul sugere tambem que alguns países podem oferecer melhores condições para inovações do que os países do Norte.

O PAPEL DO COMBUSTÍVEL NO FUTURO O ingresso na economia de serviços e alta tecnologia vêm diminuindo a importância do transporte dos países industrializados, uma tendência verificada no fim do século que prossegue até os dias de hoje (ver Tabela 1). Até no automóvel, que parecia um grande consumidor, o consumo de combustíveis não cresce por falta de usuários. Milhões de carros são fabricados para ficarem parados no trânsito, nos estacionamentos e garagens, como objeto ornamental. Com mais de um veículo por habitante (2,5 nos Estados Unidos), é impossível ao usuário ocupar mais de um ao mesmo tempo (só se tivesse o dom da ubiqüidade), o consumo depende das viagens. Alem da necessidade de locomoção de pessoas ser naturalmente reduzida numa economia de serviços, acresce o fato de estar acontecendo mudanças de hábito para carros mais econômicos. O transporte pesado tambem perde importância numa economia de bens desmaterializados. Ademais, a distribuição de mercadorias pode contar com a eficiente estrutura herdada do industrialismo. Os países industrializados podem economizar energia de aquecimento, pois têm condições de adotar tecnologias mais eficientes. Afinal, detendo 70 por cento da energia gasta no mundo todo, tem mais onde cortar. Por mais que economizem energia no usofinal, entretanto, ainda continuam grandes consumidores: consomem mais energia de aquecimento que os países em desenvolvimento consomem em alimentação. Tambem dispõem de capital para bancar nucleares mais caras, no caso mais extremo. Ao contrário, os países em desenvolvimento, vão ter de produzir os seus próprios combustíveis e, sobretudo, os alimentos (grãos) para alguns países industrializados e emergentes. As mudanças profundas no modo de produzir dos países industrializados foram abordadas por vários autores ao longo da década de 70, do último século: José Goldemberg e outros em “Energia para o desenvolvimento” de 1988; Alvin Toffler em “A Terceira Onda” de 1980. No livro recente “O Mundo é Plano”, de 2007, Thomas L. Friedman descreve, com riqueza de detalhes, como está ocorrendo o processo globalização no mundo todo. Os países em desenvolvimento e os industrializados estão descasados no que concerne ao seu desenvolvimento industrial. Nestes, o mundo já presenciou o desacoplamento do consumo de energia e atividade econômica: O PNB cresce e o consumo per cápita de energia diminui como mostra a tabela 1.

É surpreendente que a nova tecnologia da informação e da eletrônica, que produziram tantos resultados, tenha encontrado apenas soluções parciais para problemas, que pareciam menores, como aqueles relacionados com a vida concreta do ser humano, no sentido mais estreito da palavra: sua existência animal e primitiva, como alimentação, aquecimento, circulação e transporte. Atividades biológicas do ser humano concreto exigem gasto de energia que não pode ser suprida apenas por alta tecnologia. O transporte e energia, não podem ser virtuais. A novíssima tecnologia da biogenética já está produzindo aumentos substanciais de produtividade nas plantações de cana e florestas cultivadas. A nova tecnologia da biogenética, utilizada no Brasil em florestas cultivadas (clones de eucalipto) aumentou a produtividade da indústria do aço a partir do carão vegetal em mais de três vezes. No futuro próximo, quando esta tecnologia tiver maior aceitação por parte do público, talvez venha a mudar todo o panorama da produção de alimentos protêicos. Não obstante as alegadas razões ambientais, a prospecção de petróleo continuará em expansão, dada a sua grande importância estratégica. Nos próximos capítulos vamos verificar quais atividades podem ceder lugar ao etanol, verificando o consumo de combustível futuro: terra para criação de bovinos e transporte de matéria prima, seguindo o conselho de José Goldemberg: “Os países em desenvolvimento não deveriam trilhar os mesmos caminhos de desenvolvimento do Norte, mas buscar novas direções e assumir os riscos da inovação em áreas especialmente promissoras”. Por incrível que possa parecer, a mais valiosa fonte de energia permanece subutilizada: “o uso mais eficiente da energia disponível e a escolha das alternativas promissoras de produção e seus vetores energéticos”. José Goldemberg (Energia para o desenvolvimento, 1988) e (An End-use Oriented global Energy Strategy,” Annual Review of Energy, 1985, ) citado no trabalho “Energy for a sustainable World” do World Resource Institute.

CONCLUSÕES PROVISÓRIAS Todas as formas de energia provem do sol, a exceção da nuclear. A energia hidroelétrica é renovada a cada temporada de chuvas, mas, uma vez utilizados todos os saltos potenciais, não permite aumento. A energia dos combustíveis fósseis é tambem uma energia potencial depositada ao longo de bilhões de anos do trabalho da fotossíntese. Por ter sido cumulativa (como o raio x), é infinitamente maior que a energia hidroelétrica. Por esta razão, não somos ingênuos de imaginar que tenha chegado ao fim, com apenas trezentos anos do industrialismo. Agora mesmo estão sendo descobertas de petróleo a sete quilômetros de profundidade, na costa brasileira.

PETRÓLEO COMO COMODITY O petróleo é uma comodity como outra qualquer, cujo preço, 50 centavos de dólar é pouco superior ao da soja pronta para o consumo. O que torna o seu uso atraente são seus múltiplos componentes, depois da destilação: gasolina, diesel, querosene, óleo combustível, etc. A importância do petróleo vai muito além do seu uso imediato como combustível. Alem de essencial para o atendimento de necessidades presentes, no futuro sua importância será ainda maior, devido aos componentes que pode fornecer, para obtenção de bens que se tornarão “escassos”. O petróleo pode vir a fornecer outros bens como fertilizantes, plásticos do futuro, produtos da química fina, etc., em lugar de ser usado apenas como combustível, quando podem ser encontrados combustíveis líquidos mais simples, derivados da cana e celulose. Uma alternativa promissora, para países que dispõem de combustíveis alternativos é a ”estocagem do petróleo” para utilização futura, quando novas tecnologias estiverem disponíveis e a melhor forma de estocar petróleo é a “não exploração” dos poços conhecidos. Esta é a razão principal que justifica a procura de combustível alternativo em lugar de aceitar limitações “a priori”.

O FIM DO PETRÓLEO E OUTRAS HISTÓRIAS


O FIM DO PETRÓLEO E OUTRAS HISTÓRIAS A extrema dependência do petróleo, como fonte quase única de suprimento de combustíveis aliado ao atual quadro de incertezas quanto ao futuro da globalização vem despertando o ressurgimento de velhos temores: “o fim do petróleo”, “a falta de terras”, “o fim da energia”, “o fim do trabalho”, etc. Esses temores estão associados a duas necessidades vitais que dependem fundamentalmente de energia para serem satisfeitas. Países de clima frio, industrializados ou não, dependem do petróleo para aquecimento; Países em desenvolvimento dependem do petróleo para alimentação. A dependência do petróleo como única fonte produtora de energia, tem levado a utilização da terra como um recurso na produção de um combustível alternativo, o que leva a suspeita de que esta seja tambem um recurso limitado, tanto quanto o petróleo. Na verdade, todos os recursos serão sempre limitados, na medida dos nossos desejos. O mundo já se confrontou com o problema da escassez de recursos anteriormente e, muitos deles, anunciados de forma catastrófica, encontraram solução natural, com ajuda da ciência disponível a época (Clube de Roma, Profecias de Malthus). Agora mesmo estamos diante de novas ameaças de poluição, aquecimento global e mudanças climáticas, algumas sem a devida comprovação científica. As afirmações grifadas anteriormente constituem “expressões de retórica”, destituídas de significado objetivo. São expressões ambíguas no sentido da extensão e condições a que elas se referem. Muitos autores têm usado indevidamente, por exemplo, a palavra “recurso limitado”. --O que querem dizer, exatamente, quando afirmam que o petróleo é um “recurso limitado?” --Limitado no tempo e no espaço (100 anos, por exemplo, excluída a Antártica e o pólo Ártico)? A experiência tem mostrado que, toda vez que o preço do petróleo se eleva subitamente, novas descobertas de petróleo surgem (Mar do Norte, Alasca, costa brasileira).--Quem, em “sã consciência”, pode afirmar que depósitos fósseis, acontecidos ao longo de bilhões de anos, sob as mais severas condições de pressão e temperatura no interior da terra, podem acabar de uma hora para outra, em poucos anos do “industrialismo”? É muita presunção. Ainda bem que os países industrializados não levem muito a sério esse tipo de ameaça, que mais parece uma “seita”.

Energia elétrica, de origem hidráulica ou nuclear, poderia substituir a queima de combustível a custos maiores, como vem acontecendo. Mas, não se adaptam bem ao perfil da demanda dos diversos países: Países industrializados (geralmente de clima frio) queimam combustível que é a forma eficaz de produzir calor (2º princípio) e tambem queimam combustível para acionamento de veículos. Não é casual, portanto, que os países industrializados tenham um consumo de combustível ajustado à demanda. De fato, nestes países o petróleo é responsável por 92 % da demanda de aquecimento e transporte. Países em desenvolvimento queimam combustíveis para produzir e transportar alimentos. A energia elétrica é usada adequadamente nos países em desenvolvimento que têm potenciais hidroelétricos ainda inexplorados (Brasil, China). Outras formas de energia estão sendo utilizadas em pequena escala como fontes de calor em diversos países: eólica (Estado Unidos e países escandinavos); geotérmica (Islândia); usinas de biomassa (Brasil). Ironicamente, até o aquecimento solar direto, que parece uma solução natural, não encontra condições favoráveis de utilização: países de clima frio, os mais necessitados, estão sujeitos ao escasso sol de inverno, enquanto que, nos países tropicais o aquecimento é desnecessário (entretanto não é ainda praticado no Brasil que utiliza o “anacrônico” chuveiro elétrico para aquecimento).

Duas transformações são especialmente privilegiadas pelos altos rendimentos do processo, tanto na forma de produção quanto no consumo: energia elétrica de origem hidráulica e queima direta de combustível. Energia hidroelétrica é a mais preciosa, tanto pelos baixos custos quanto pelas facilidades no uso. Nos países industrializados, os primeiros a crescer no período do industrialismo, todos os potenciais disponíveis, obviamente, já foram utilizados. A queima direta de combustível é a forma mais eficaz de produção de calor e se adapta bem ao perfil dos países industrializados, concentrada na demanda por aquecimento. “A energia hidroelétrica e a biomassa, promissoras fontes de energia renováveis, responderam pela metade da energia primária usada nos países em desenvolvimento em 1980. Contudo, as fontes renováveis poderiam dar apenas contribuições relativamente limitadas para o suprimento de energia requerida pelo mundo todo. Apesar de os países em desenvolvimento terem explorado apenas sete por cento de seus recursos hidroelétricos, o potencial econômico total desses recursos é de cerca de 700 GW. Os recursos da biomassa são limitados pelas restrições ao uso da terra impostos pela baixa eficiência da fotossíntese. Somente uma pequena fração destes pode ser explorado como bioenergia, porque as florestas devem servir a muitos propósitos, inclusive o de habitat da para a fauna selvagem” (José Goldemberg e outros).

O PAPEL DO COMBUSTÍVEL NO PRESENTE Com raras exceções, toda forma de energia a ser utilizada em larga escala no mundo todo, passará, de uma forma ou outra, pela queima de algum combustível. Nem a energia nuclear, esperança do futuro, escapa do processo ineficiente da transformação de calor em energia elétrica. Isto significa que os países Industrializados vão ter que disputar preços elevados de combustíveis com os países em desenvolvimento ou, como última instância serão obrigados a utilizar energia nuclear a custos muito maiores, em razão dos baixos rendimentos inerentes ao processo de transformação.

futuro : queima de algum combustível


Como, fatalmente toda energia do futuro passará pela queima de algum combustível, este fato não representa desvantagem para os países em desenvolvimento, ao contrário dos países industrializados que recorrerão à energia nuclear, mais cara, para obterem energia de aquecimento. Quando houver predominância de térmicas nos países em desenvolvimento, estes poderão afinal ficar livres do “critério de risco”, utilizado pelos planejadores na década de 50: as novas usinas hidroelétricas da Amazônia não precisarão estar condicionadas ao atendimento da carga em qualquer circunstância, como antes, quando o sistema foi exclusivamente hidroelétrico. Estas, bem como as atuais hidroelétricas, não serão mais responsáveis pelo atendimento das solicitações instantâneas da carga, que passará a ser suprida ocasionalmente pelas termoelétricas (de custo fixo mais baixo) que serão maioria. Tambem funcionarão a plena potência em todas as condições de vazão, a qual não precisa ser garantida. A “energia garantida” não precisará ser aquela do “Período Crítico”, mas a máxima que as hidroelétricas puderem produzir, em qualquer condição de vazão, limitada apenas à potência instalada de cada usina. Mesmo que não exista carga, esta poderá ser criada artificialmente para a produção sazonal, a baixo custo, de comodities metálicas de alto valor agregado, intensivas em energia elétrica (eletrólise a quente), tornando assim em instrumento eficaz de planejamento da produção industrial. A excessiva motorização das usinas hidroelétricas atuais, que foi motivo de muitas críticas, como “obra faraônica”, agora por motivo de mudanças históricas, felizmente encontra uma alternativa bastante promissora de utilização (“O Sistema elétrico do Brasil”, janeiro de 2005, do autor).

FORMAS ANACRÔNICAS DE ENERGIA As circunstâncias históricas mudam de tal forma que muitas soluções, consideradas anacrônicas, podem ser ressuscitados com sucesso, graças à nova tecnologia da biogenética. Assim, o aço brasileiro baseado em carvão vegetal, vista por muitos como anacrônica, compete bem nos mercados, atualmente, porque sua indústria está muito mais adiantada em relação à antiga tambem baseada em carvão vegetal, há muito abandonada pelos países industrializados, alem do que a tecnologia da biogenética favorece países tropicais. As árvores utilizadas na Suécia levam trinta anos para serem aproveitadas, enquanto as florestas cultivadas do Brasil são cortadas com seis anos. Os ganhos de produtividade das florestas cultivada no Brasil aumentaram em cinco vezes, pelo emprego de “clones” de eucalipto e melhores técnicas de cultivo e de aproveitamento do carvão vegetal. È um feito surpreendente que mostra o caminho a ser seguido pelos americanos e chineses que insistem nas grandes siderúrgicas a carvão mineral. O próprio “Gasogênio”, uma relíquia do passado da segunda guerra, pode ser ressuscitado como uma alternativa promissora para países pobres carentes de petróleo, mas ricos em biomassa.

Os países em desenvolvimento não precisam, necessariamente, repetir os mesmos passos dos países industrializados, evitando assim escolher alternativas que se tornaram inviáveis nestes países. Podem queimar etapas com melhores escolhas. Nem os países industrializados precisam, hoje, retroceder ao passado do industrialismo para proteger seus empregos. Conclusões de Malshal McLuhan, o papa da comunicação, referenciado por L.O. Lima em “Mutações em Educação segundo McLuhan”, 1982, 16º edição, Vozes RG: “Mas terá cabimento, num país subdesenvolvido, tomar-se como meta a reflexão vinda de (McLuhan) de uma civilização pós-industrial como a americana? Muitos pensadores estão convictos de que a reflexão prospectiva – dedução do statu quo dos países altamente desenvolvidos – é a melhor solução para os países subdesenvolvidos: assim, esses países evitarão incorrer (por ensaio e erro) nas soluções que hoje se mostram inadequadas naqueles”. Por outro lado, o processo civilizatório atual -- dentro das defasagens internacionais – mostra que é possível queimar etapas: a eletronização da Amazônia, por exemplo, é uma comprovação de que se pode antecipar as comunicações que (se tivessem que seguir as etapas históricas) passariam antes pelas estradas a pé, a cavalo, por água, estradas de rodagem, estradas de ferro e, finalmente pelo avião, antes de chegar as microondas e aos satélites”.

AQUECIMENTO SOLAR DIRETO Ironicamente, o aquecimento solar direto, que, sem dúvida, é a melhor forma de produzir calor, não está plenamente disponível para os que dele mais precisam os países de clima frio. Nos países tropicais, é desnecessário. A humanidade toda se sente ameaçada ante a possibilidade que venha faltar alimentos, terra, combustível. As preocupações são genuínas. Mas, devemos lembrar que a humanidade já se confrontou com problemas maiores no passado. A melhor maneira de afastar esses temores e ganhar tempo, até que novas tecnologias estejam disponíveis, é investigar como demanda e oferta de energia se combina no presente, bem como sua evolução futura. Cada país deve fazer a escolha das melhores alternativas de produção e consumo de energia, como aponta José Goldemberg no seu trabalho premiado “Energia para o Desenvolvimento”, de 1988, cuja principal conclusão é a seguinte: “Os países em desenvolvimento não deveriam trilhar os mesmos caminhos de desenvolvimento do Norte, mas buscar novas direções e assumir os riscos da inovação em áreas especialmente promissoras”. Em lugar de prever o futuro, países em desenvolvimento devem ler o passado, não para copiar, mas para não incorrer no erro de soluções que se tornaram inviáveis naqueles países, simplesmente porque as condições mudaram. Ao invés de planejar, os diversos países devem “garimpar” as alternativas promissoras próprias.

A NATUREZA LIMITADORA DOS PRINCÍPIOS A maneira mais eficaz de produzir calor é através da queima direta de combustível e, não por coincidência, o aquecimento é a maior demanda dos países industrializados de clima frio (58% nos Estados Unidos). O modo mais barato de produzir trabalho mecânico é a utilização dos potenciais hidroelétricos e a energia de acionamento é a maior demanda dos países em desenvolvimento (50%). Não é, por acaso, que os últimos potenciais inexplorados se encontrem nos países em desenvolvimento (700 Gw) tambem não é surpresa nenhuma que os combustíveis tenham se tornado escassos (fósseis e biomassa). Ambas as formas operam com elevados rendimentos tanto na produção (80%) quanto no consumo (cerca de 70%). As demais formas de energia têm rendimentos menores seja na produção e/ ou no consumo. O transporte, maior consumidor de combustível, é a segunda maior demanda dos países industrializados (34%) e a primeira dos países em desenvolvimento (50%). No entanto, o mundo todo continua utilizando o motor à explosão, um meio bastante ineficiente de produzir energia de acionamento. Alguns exemplos de utilização inadequada ou ineficiente: • Queimar bagaço de cana é uma forma eficaz de gerar “calor de processo”, mas, não é a melhor forma de produzir eletricidade (térmica a vapor). • A utilização de chuveiros elétricos é uma forma de esbanjar energia. Usar energia elétrica já produzida por termoelétricas convencionais ou nucleares para aquecer residências, que é maior necessidade dos países industrializados (58%), é uma forma cara e redundante de transformar calor em calor (ver figura 1).

USO FINAL, VETORES ENERGÉTICOS Entender o real significado de “economia no uso final de energia e escolha das alternativas promissoras e seus vetores energéticos”, cujo sentido parece claro por si mesmo, é de importância vital para compreender devidamente a que o professor Goldemberg está se referindo. A mensagem é a seguinte: por melhores que sejam os planos econômicos, estes não levam em conta o grande número de variáveis intervenientes, principalmente as condições históricas imprevisíveis e probabilísticas. “A pior forma de reacionarismo é não levar em conta o tempo e ficar estacionado em um passado, que não foi tão bom quanto idealizado hoje, e não pensar que as coisas mudam a todo instante. A característica mais importante de nossos dias é a ”mudança e a surpreendente velocidade com que verdadeiras mutações ocorrem”. Velhos padrões perderam o sentido, tudo é ao contrário. Só velhos princípios ainda permanecem. Por enquanto.

A BANCARROTA DOS ESTADOS NACIONAIS A atual crise vem demonstrando que os países não têm poder de ação relativamente às suas empresas transnacionais, cujos interesses se encontram mais fora de seus países de origem. Até países em desenvolvimento estão criando suas empresas Multiestatais (parece uma heresia): a Petrobrás, por exemplo. Os nacionalistas da Bolívia estão brigando com inimigos errados (Bush, que desocupa o cargo em dez meses), em lugar das “Trans”, como fizeram com relação ao Brasil, pervertendo o sentido do mercosul conforme fez o Índio e o bispo. O Mercosul, hoje, é uma mistura espúria de alucinados idealistas bolivarianos, todos iguais na pobreza e incapazes de constituir um bloco, impossível de acontecer. Aliás –como afirma o ditado caipira – “fazer sociedade com pobre, é o mesmo que pedir esmola pra dois”. Essa era a tônica dos discursos da época dos grandes planos do sistema elétrico brasileiro, cujos preâmbulos se iniciavam com as afirmações: “para que o PIB cresça 8% a oferta de energia deve antes crescer 10%”, dando a entender uma estreita correlação entre o crescimento do PNB e a demanda de energia per cápita.

O CULTO DO PLANEJAMENTO O desenvolvimento dos países industrializados de hoje aconteceu sob condições inteiramente diversas. Os conhecimentos da época eram escassos, de forma que, considerações de eficiência não eram relevantes (o problema não continha os clássicos limites das condições de contorno). As mudanças ocorriam em ciclos estáveis que cabiam dentro do prazo de vida de uma pessoa, no decorrer de um industrialismo, que durou cerca de 300 anos. Um exemplo: as locomotivas a lenha de 1950 eram verdadeiras fábricas ambulantes, devoradoras de lenha e a vapor, de rendimento baixíssimo para acionar pistões. Hoje, com as mudanças ocorrendo a ciclos cada vez menores, qualquer trabalho que leve mais de cinco anos, será obsoleto na publicação. “Não há como preparar países para enfrentar a globalização da economia: Não há um mundo previsível para o qual se possa preparar algum país. A todo o momento, através de retro-efeitos (feedback) a vida irá se transformando segundo uma lei geral de probabilidades (auto-regulação). A tecnologia, em sua permanente criatividade, levou de roldão a estabilidade cíclica dos sistemas simbólicos (arquiteturas puramente ideológicas)” (Malshall McLuhan). Foi a estratificação do industrialismo que criou a necessidade de planejamento. O planejamento foi mais um instrumento de imobilização da vida (desestimulação da criatividade) que fator de reequilibração permanente. Os planos tinham por objetivo evitar a invenção. Velhos conceitos, puramente ideológicos (livre mercado, estatais, liberalismo), perderam totalmente o sentido com o fim das ideologias e o fim da história A palavra de ordem agora é “cooperação espontânea”. Como planejar um futuro, vivendo dentro das mudanças, que são verdadeiras mutações acontecendo e das quais não damos conta no tumulto das mudanças profundas?

GRANDES PLANOS Entender como fontes e cargas estão relacionadas nas distintas fases que cada país atravessa, constitui a melhor maneira de por em prática os princípios que levam á formas eficientes de utilização da energia. Estas devem ser vistas com reserva porque o uso de energia não é o único fator de desenvolvimento e nem o desenvolvimento é um fim em si mesmo. Muito mais importante do que verificar a forte correlação histórica entre uso de energia e PNB é ver como os diversos países utilizam a energia. O Japão, por exemplo, utiliza energia de modo mais eficiente que os Estados Unidos. Enquanto este gasta três vezes mais energia (per cápita), seu padrão de vida (pib per cápita) não chega a ser o dobro. A China consome quase a mesma energia per cápita que o Brasil e, no entanto, seu PIB per cápita é apenas metade. O elevado crescimento da China não deve ser motivo de espanto. Países populosos naturalmente têm PNB elevado, o que não quer dizer nada. O crescimento segue uma tendência exponencial nas fases iniciais. Quando desenvolvidos tendem a saturação (logística). Então é perfeitamente natural que países pobres cresçam mais (exemplo da Albânia na antiga URSS). Há uma aceitação tácita de que energia produz desenvolvimento. A simples constatação de que os países ricos são aqueles de maior consumo de energia per cápita, reforçada pelas enormes disparidades, tem levado a crença de que basta por a disposição quantidades expressivas de energia para o desenvolvimento ocorrer, quase por milagre. Planos econômicos postos em prática por indistintos países capitalistas ou socialistas, liberais, nacionalistas ou estatais produziram resultados em circunstâncias históricas de crise. De fato o desenvolvimento ocorreu, mas não se pode dizer se foi consequência dos planos ou apesar deles. Os grandes planos de aproveitamento múltiplo de bacias: Tenessee Valley Authority (TVA) dos Estados Unidos, Qüinqüenais da antiga URSS, Plano de Metas do Sistema Elétrico Brasileiro, etc, influenciaram demasiadamente os planejadores da época do desenvolvimentismo. Alguns trouxeram consequência desastrosas, como consequência da dependência do petróleo e de capitais externos que levaram países em desenvolvimento ao comprometimento de suas exportações, com negociação de dívidas a juros variáveis (era Reagan). Alguns aprenderam a lição o que permitiu a condição favorável de hoje.

EFICIENCIÊNCIA NO USO


USO mais eficiente da energia Uma redução de 6% no uso total de energia no Japão e países da OCED foi acompanhada de um crescimento superior a 21% no PIB per cápita (46% no Japão). Nos Estados Unidos o descompasso foi mais impressionante: crescimento de 17% no PIB com queda de 12% no uso de energia per cápita. Estudos correlatos mostram que esta tendência vai continuar por muito tempo, não só pelas mudanças estruturais que estão ocorrendo na economia desses países, como pelas possibilidades de uso mais eficiente da energia. Países em distintas fases históricas têm formas diferentes de combinar fontes de energia e formas de uso mais adequadas e eficientes, regidas pelos princípios da termodinâmica. “O uso de energia Depende da composição das atividades que utilizam energia nas distintas fases históricas que cada país atravessa. Depende tambem das tecnologias empregadas no caminho escolhido para o desenvolvimento. A necessidade de um serviço prestado pela energia depende da eficiência no uso-final e seleção das fontes mais adequadas. Uma considerável variação, tanto no uso agregado de energia como na composição das fontes de suprimento de energia pode constituir a base de um determinado nível agregado de atividade econômica” (José Goldemberg).

CONDIÇÕES HISTÓRICAS Alguns (planejadores) chegavam ao extremo detalhe de relacionar de forma quantitativa essa idéia: “para que o PIB cresça 7%, o suprimento de energia precisa crescer a 10%”, como que predispondo suprimento com margem para garantir o crescimento do PIB per cápita. Essa era a tônica dos preâmbulos dos planos de desenvolvimento da década de 60. Outra crença em voga na época era de que o quadro permanecesse independente das circunstâncias históricas. Na verdade, é muito difícil perceber e reproduzir as condições históricas que produziram desenvolvimento em alguns países e outros não. A idéia aceita universalmente de que “o desenvolvimento requer grande aumento no uso de energia per cápita” ou “a aceitação tácita de que energia produz desenvolvimento” é apenas uma comprovação óbvia de um passado com abundância de recursos. Hoje, num quadro de escassez, não é mais imprescindível o grande uso de energia para se ter crescimento do produto bruto per cápita, como demonstram alguns países do Leste Asiático que conseguiram o mesmo objetivo sem recorrer ao aumento expressivo do uso de energia. Simplesmente “queimaram etapas” intermediárias dos países industrializados, ao ingressarem na fase da economia dos serviços, das tecnologias da informação e da eletrônica. Algo semelhante é evidenciado pelas mudanças estruturais ocorridas nos países industrializados, que tambem cresceram com diminuição do consumo de energia, entre 1975 e 1983, coincidindo com a experiência inédita de cooperação espontânea entre transnacionais e países em desenvolvimento.

“Planejar é muito perigoso”


RETROSPECTIVA DO SISTEMA ELÉTRICO BRASILEIRO “Planejar é muito perigoso” . Durante largo período prosperou a idéia de que o desenvolvimento fosse algo planejável através de elevados suprimentos de energia per cápita. Esta foi a essência dos grandes planos econômicos do século passado: planejar o futuro através da projeção de demandas crescentes verificadas no passado. (Planos Qüinqüenais, Planos de Metas, New Deal, etc.). Pode parecer evidente que a idéia de que o desenvolvimento requer um grande aumento do uso de energia per cápita, assim como não há como negar que o uso de energia pode variar no tempo, em virtude do uso intensivo das principais fontes disponíveis: petróleo e potenciais hidroelétricos. A idéia não é mais tão evidente como foi no passado de abundância de recursos, nem as disparidades são tão acentuados.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

VITÓRIA DE PIRRO


ACONTECEU O ÓBVIO A manutenção do preço da gasolina constitui um sério obstáculo a produção de álcool hidratado. O etanol não consegue competir com o combustível fóssil - balizado pelo governo - e acaba sobrando nas bombas. “O governo deveria destravar o preço da gasolina e deixar os preços flutuarem. Só assim o etanol passaria a ser competitivo. Hoje, o etanol está amarrado ao preço da gasolina para o controle da inflação.. Este não tem condições de concorrer com preço congelado da gasolina por tanto tempo. Nem mesmo a queda da sobretaxa – durante muito tempo um “cavalo de batalha” – constitui “tábua de salvação” para o etanol brasileiro que não tem condições mínimas de abastecimento interno no curto prazo. Ironicamente acabou ocorrendo por decurso de prazo, em um momento delicado para a agroindústria canavieira porque, infelizmente, não existe álcool anidro suficiente para suprir a grande quantidade de carros flex que migraram para a gasolina com preço congelado desde 2009. E o que é pior: o Brasil acabou tendo de importar etanol de milho mais caro devido a retirada simultânea do subsídio. Nos próximos 4 anos o álcool estará comprometido com o aumento da importação de gasolina, mesmo que seja reduzido o percentual aditivado. NADA DE NOVO Qualquer medida só produzirá efeito no longo prazo. A recomposição da lavoura de cana é lenta e requer prazo biológico para plantio e maturação e a construção de novas destilarias, sabidamente, é demorada. O fim do subsídio e queda concomitante da sobretaxa favorece duplamente o álcool anidro brasileiro, a saber, no longo prazo. A queda da sobretaxa já tinha sido aprovada no senado, dependendo de aprovação da câmara. Tal como acontece no Brasil (medidas provisórias), aconteceu o inesperado: congresso entra em recesso sem renovar barreiras. Isto é o que, eufemisticamente, se pode chamar de “desaprovação por decurso de prazo. Tudo aquilo que foi reclamado nos últimos 31 anos, de repente acontece e, infelizmente, o Brasil não tem álcool para exportar. Ao contrário vai importar etanol de milho mais caro devido a queda simultânea do subsídio. VITÓRIA DE PIRRO De tanto fazer mágicas com preço congelado da gasolina o feitiço acabou se voltando contra o aprendiz: Acabou inviabilizando – por alguns anos – o álcool hidratado e o carro “flex”, que são criações genuinamente brasileiras, tal como a “jaboticaba”, que só dá no Brasil. Resta o álcool anidro aditivado que é muito mais importante e vale mais do que a parcela correspondente da gasolina substituída pelo fato de eliminar contaminação por chumbo muito mais poluente (Chumbo Tetraetila, estão lembrados?). Um problema ambiental para o qual existe um mercado mundial muito mais promissor e tão grande que o Brasil não conseguirá atender sozinho. Mas, tem tecnologia e conhecimento bastante para ajudar outros países mais pobres a produzi-lo. A queda de barreiras ao álcool anidro brasileiro acabou acontecendo mais por pressão dos contribuintes americanos do que por interferência da presidente. Para o consumidor americano a manutenção da sobretaxa se tornou inócua, dada a impossibilidade técnica de suprimento por etanol brasileiro. Até que enfim concluíram pelo óbvio.

PORTEIRAS ESCANCARADAS


O APRENDIZ de FEITICEIRO A queda da sobretaxa ao álcool brasileiro ocorreu mais por pressão do contribuinte do que por ação efetiva do governo brasileiro. O congresso americano passou batido e a sobretaxa caiu automaticamente por decurso de prazo. E nem com isso aprendemos a lição: continuamos subsidiando diesel, álcool, e – pasmem! – a própria gasolina dos carros flex incentivados. E o pior: maior consumo de gasolina implica em maior consumo de álcool aditivado obrigatório (25%). De exportador de álcool anidro passaremos a importador de etanol de milho, doravante encarecido pela eliminação simultânea do subsídio ao consumidor americano. De tanto fazer mágica, o feitiço acabou virando contra o feiticeiro tal como na fábula. Conseguimos inviabilizar, por alguns anos, a produção do álcool hidratado e o carro flex, criação genuinamente brasileira, tal como a jaboticaba que só dá por aqui. O que era um sonho, virou pesadelo. O etanol não consegue competir com o combustível fóssil - balizado pelo governo - e acaba sobrando nas bombas. “O governo deveria destravar o preço da gasolina e deixar os preços flutuarem. Só assim o etanol passaria a ser competitivo. Hoje, o etanol está amarrado ao preço da gasolina para o controle da inflação”. Com o fim das barreiras o Brasil passa a desfrutar de melhores condições para exportar etanol de cana, mas ironicamente num momento em que a produção nacional está em baixa. A quebra da safra de cana-de-açúcar este ano é estimada em 10%, só se prevendo uma recuperação plena a partir de 2014. Canaviais precisam ser renovados e ampliados e isto leva anos. Agricultura requer prazos biológicos, por isso é lenta por sua própria natureza. Novas usinas não podem surgir dum ano para outro. Exige planejamento antecipado. O que acabou foi álcool hidratado e o carro flex, criação genuinamente brasileira, como a jaboticaba que só dá por aqui. Muito mais importante é o anidro, de cana ou de milho, por isso compensa, mesmo com preço maior.

ESTOQUES REGULADORES


Produtores americanos já não temem a concorrência do etanol procedente do Brasil. Estão cientes do impulso que a Lei de Energia dos EUA dá ao consumo de biocombustíveis. Um acordo entre os dois maiores produtores será bastante viável uma vez que a produção de um é complementar a do outro, desta forma, dispensando estoques reguladores (de milho e etanol). Não há dúvida, como observam os produtores, de que a nova posição americana é um poderoso incentivo para o aumento da produção brasileira de etanol. Estima-se que serão necessários investimentos da ordem de US$ 156 bilhões até 2020, com a construção de 120 destilarias, para possibilitar a exportação de 13,5 bilhões de litros de etanol para o mercado americano. OPORTUNIDADES As oportunidades estão abertas a todos. Há um mercado interno a ser reconquistado, aquele que se perdeu por causa da baixa competitividade do etanol e da menor oferta do produto. Embora continue elevada a proporção de veículos novos flex nas vendas para o mercado interno, estima-se que,nos últimos dois anos, o volume de carros abastecidos com etanol diminuiu de 60% para 35% da frota. E há, agora, o imenso mercado americano que se abre para os produtores de outros países, a começar pelo Brasil. São possibilidades que investidores nacionais e estrangeiros certamente considerarão em seus planos para os próximos anos. Uma aberração. É o fim da picada: exportar etanol de cana e importar etanol de milho. Duzentos milhões de Hectares de pastagens degradadas estão disponíveis para plantação de cana, soja e milho sem que seja necessário devastar a Amazônia para criação de gado solto. Se o etanol de milho não é mais viável nos Estados Unidos – e a FAU pede a sua proibição – só agora estão percebendo que pode ser viável no Brasil em locais distantes: – Utiliza a mesma instalação ociosa da fabricação de cana: moagem, fermentação, caldeira, as dornas e colunas. – Evita o passeio inútil do milho para os portos e do etanol distante. – Pode ser processado no mesmo ano em até duas safras sem necessidade de estoques (milho safrinha). – Pode ser consumido no mesmo local de produção, evitando o transporte de etanol. – A colheita deixa restos na lavoura e o transporte do grão é muito mais barato do que o transporte de água e bagaço contidos na cana. De acordo, em parte, com a entrevista de José Luiz Oreiro, mas não totalmente pelas mesmas razões: o Pre-sal é tão volumoso quanto a quantidade e porte das usinas e reservatórios projetados para a Amazônia. Sou cético também com pré-sal e o aquecimento global antropogênico. Ao meu ver, uma seita a mais como tantas outras seitas religiosas.

ATÉ ETANOL DE MILHO?


ATÉ DE MILHO? Não chega a ser irônico que o etanol de milho – condenado de maneira veemente por 31 anos de barreiras – se torne viável no Brasil como única solução de imediato para o momento? Uma dupla economia no transporte inútil de milho e álcool, por estradas esburacadas do interior brasileiro. Álcool de arroz já é produzido nas cadeias. E ótima oportunidade para a produção local de combustível e energia térmica distribuída. E O excedente de milho que não vai ser utilizado nos EUA para fabricação de etanol pressionará certamente o mercado provocando baixa no preço de commodities agrícolas, o que constitui oportunidade para o esvaziamento dos estoques ‘ao tempo’ nos lugares distantes do centro-oeste e estimulo para o milho safrinha que está sendo plantado. De modo emergencial, as usinas devem priorizar ainda mais a produção álcool anidro, ao menos para a mistura obrigatória – agora rebaixada para 20% – e de açúcar, que está remunerando melhor no mercado externo, e deixar de fazer o etanol hidratado (usado nos carros flex) até o setor se reestruturar. Há uma estreita correlação entre preço de petróleo e commodities, inclusive etanol, uma quase commodity. Se o preço do petróleo se eleva, também sobem os produtos que tem o petróleo como insumo. O álcool é um carburante ordinário quando comparado à gasolina. Requer petróleo como insumo e “pega carona” no diesel subsidiado utilizado para baixar preço dos alimentos. Sua principal virtude está na propriedade antidetonante e daí sua importância quando adicionado à gasolina, mesmo em proporção mínima de 10%. Os dois maiores produtores de etanol anidro, EUA e Brasil, mal darão conta do suprimento mundial da mistura mínima de 10% nas próximas 2 décadas. SEM SAÍDA Alem de pagar mais pelo etanol de milho – agora sem os subsídios – o Brasil vai ter de importar maior quantidade devido à concorrência na exportação dos produtores nacionais, estimulados pelo maior preço pago nos EUA, conforme explica o professor Adriano. È o fim da picada! Durante 1 século a população do mundo inteiro foi severamente castigada pela contaminação por chumbo oriunda da adição do “chumbo Tetraetila” e, ainda hoje, alguns países pobres continuam sujeitas a este contaminante por não terem o álcool substituto. È o que acabará acontecendo nas regiões pobres do Brasil se o preço da gasolina continuar inalterado “As exportações de etanol para os Estados Unidos subiram de 313,4 milhões de litros em 2010 para 663,925 milhões. O aumento foi impulsionado pelo prêmio pago pelos Estados Unidos para o etanol avançado, categoria em que o etanol de cana-de-açúcar está incluído, por ter ciclo de emissões reduzidas em relação ao álcool de milho” (do Isto é Dinheiro). E, especialmente, por evitar contaminação por chumbo. Com o prêmio pago pelo produto brasileiro, o Brasil pôde e poderá exportar etanol de cana e importar etanol de milho e ainda ganhar um prêmio na operação. Em 2012, as exportações para os Estados Unidos poderão crescer ainda mais com a queda da tarifa de importação e do prêmio pela qualidade.

DA EUFORIA À DEPRESSÃO


Lenha nova para velha fornalha: a febre dos agrocumbustíveis. Sergio Schlesinger, em 2007. Resumo de manchetes: –Segundo o IEA: “o Brasil poderá ter uma produção de 26 bilhões de litros de álcool em 2015/16 numa área de cana o dobro de 2007/2008”. – Segundo a AIE: “Em 2030 o mundo estará consumindo cerca de dez vezes mais agrocumbustíveis do que nos dias de hoje. E a produção brasileira de agrocumbustíveis deve crescer mais rapidamente que a de outros países, chegando a um terço do total mundial”. – Segundo o BNDES: “O Brasil pode contribuir para uma meta de 10% de substituição da gasolina no cenário mundial (220 bilhões de litros). Terá que multiplicar por sete sua produção de etanol, para chegar a algo em torno de 110 bilhões de litros (50%). Os canaviais teriam que ocupar 28 milhões de hectares equivalentes à soma daquelas ocupadas pela soja e pela própria cana, no Brasil, em 2007. Quem poderia imaginar que em menos de 4 anos a situação fosse completamente distinta. BOMSENSO PREVALECE Em meio à euforia, Benedito Rosa do Espírito Santo, pesquisador do Ipea adverte que o nascente mercado externo ainda é “instável” e sofrerá “mudanças espetaculares” no médio prazo com o domínio da tecnologia de fabricação de etanol a partir de celulose. “Se houver uma crise no meio do caminho, vamos ter excedentes enormes e um modelo de alto grau de vulnerabilidade. Ora, as previsões falharam redondamente nesta passagem de 2011 para 2012. Parece que o professor Benedito Rosa estava adivinhando o tamanho da crise que estava por chegar em 2008 e seguintes anos.

ÁLCOOL: DE PROMESSA A PROBLEMA


“Substituir álcool por gasolina afastaria o problema de segurança do abastecimento, que foi o motivo do fim do carro a álcool puro a partir do final da década de 1980”. Mas, O problema de segurança não é eliminado, apenas transferindo para o abastecimento de gasolina. Gasolina subsidiada gerou um salto de consumo de 17% em 2010”, quando foram importados 3 milhões de barris a preço mais elevado. Por Luciano Losekan. coisa que praticamente não ocorreu nos últimos anos. Se a percentagem aditivada fosse reduzida com antecedência, poderia evitar a pressão altista sobre os preços do etanol anidro que é o mais importante. Ou mesmo um acordo entre os 2 maiores produtores (~80%). Mesmo mais caro do que a gasolina valeria a pena (por) reduzir a poluição local e contaminação por chumbo (Chumbo tetraetila). A produção de etanol anidro, impulsionada pelas vendas de gasolina, respondeu pela maior parte desse crescimento. A perspectiva para a próxima safra é de redução do total e do etanol hidratado. Só um adendo, Hugo: o Brasil foi o primeiro país do mundo a abolir o uso do chumbo-tetraetila na gasolina e isso, justamente por causa do etanol. Alem disso, Otto, ocorreu um fenômeno curioso: O aumento na exportação foi impulsionado pelos prêmios pagos pelos Estados Unidos para o etanol avançado (de cana). Com isso, em 2012 o Brasil pode exportar etanol de cana e importar etanol de milho e ainda ganhar um prêmio na operação. Praticamente o dobro do subsídio: US$1/por galão. Em 2012 As exportações para os Estados Unidos recomeçam com nova vantagem: a queda da tarifa de importação que – por decurso de prazo – o congresso se esqueceu de renovar. Reconhecendo o equívoco do protecionismo o congresso americano derruba as últimas barreiras sobre o etanol importado e – ainda de quebra – oferece prêmio sobre o etanol de cana mais avançado: praticamente o dobro do subsídio: US$1/por galão. Enquanto que por aqui o governo brasileiro insiste no subsídio à gasolina e diesel para conter a inflação. Pior ainda, a incidência de impostos CIDE,PIS E COFINS é invertida: pesa mais sobre o combustível mais avançado com prejuízo para a poluição local das grandes cidades.

A CRISE DO ÁLCOOL


O PATINHO FEIO A produção de álcool carburante só subsiste como anidro antidetonante acrescido à gasolina e graças aos eternos subsídios ao diesel para acionar tratores e caminhões do agronegócio, dos quais o álcool pega uma carona na lavoura de cana. Não tem lógica usar um combustível para produzir parte do outro em condições arcaicas. O álcool usa diesel na parte agrícola e no transporte de 90% de água que vai ser extraída utilizando bagaço úmido de valor desprezível até para oleiros. Não basta ter rendimento energético positivo que representa apenas gastos correntes. È preciso ter em conta os elevados custos de capital sobre o qual incidem juros na entressafra, ocasião em que as usinas permanecem ociosas. O mesmo acontece com as usinas de biomassa: Não compensa queimar bagaço apenas porque é gratuito: o processo termodinâmico é arcaico e intensivo em capital. A CRISE DO ÁLCOOL Hoje, não é mais a concorrência pela terra em detrimento da produção de alimentos – já reconhecida pelos países industrializados – mas com a destinação do próprio açúcar como alimento e dos fortes estímulos decorrentes da queda das últimas barreiras e substituição dos subsídios por prêmios dobrados aos consumidores do etanol de cana. No exterior a exigência de frações mínimas de bicombustível adicionado e os custos locais muito mais elevados deverão sugar o álcool do nosso mercado.

CRISE DE ALIMENTOS


A CRISE DO ÁLCOOL Hoje, não é mais a concorrência pela terra em detrimento da produção de alimentos – já reconhecida pelos países industrializados – mas com a destinação do próprio açúcar como alimento e dos fortes estímulos decorrentes da queda das últimas barreiras e substituição dos subsídios por prêmios dobrados aos consumidores do etanol de cana. No exterior a exigência de frações mínimas de bicombustível adicionado e os custos locais muito mais elevados deverão sugar o álcool do nosso mercado. CRISE DE ALIMENTOS Até mesmo os grãos, milho e soja – eufemisticamente considerados alimentos – dependem de subsídios ao diesel para que sejam viáveis. O grão não é, tipicamente, um alimento do ser humano. Ele os consome em pequenas quantidades junto com outros alimentos. É utilizado pelos países importadores na alimentação de pequenos animais para produzir carne, um alimento protéico. Países populosos dependem dos grãos não como alimento diretamente, mas para engorda de bois precoces confinados que consomem grãos em grande quantidade, mesmo sendo ruminantes. Nos países populosos o problema crucial é de terra suficiente para cria de gado bovino. Por isso que comodities estão em alta constante, acompanhando os preços do petróleo. Mas isso não vai durar para sempre.

LAVOURA ARCAICA


A VOLTA DOS PETROSSAUROS


Ao contrário das hidroelétricas do Sudeste que foram projetados por vazões médias regularizadas por reservatórios, as grandes hidroelétricas têm sido projetadas para o máximo que conseguem produzir no período de cheias da Amazônia, onde as diferenças estacionais são muito maiores do que no Sudeste. Quanto maior a motorização, menor o custo de capital por Kw instalado, o que justificaria a construção de empreendimentos de grande porte à semelhança das grandes usinas do passado. A comparação com outros “monstrengos” é mais ou menos óbvia: Três Gargantas, Tucurui, Itaipu e Belo Monte. Para diminuir o custo da energia no período de seca obviamente as usinas são construídas com reservatórios mínimos, mas os custos e riscos da transmissão permanecem.

MEIOS E FINS


CUSTOS E RISCOS Mas, se os custos de geração podem ser reduzidos não há como evitar o custo e risco da transmissão dos grandes blocos de potência gerados por usina, que requerem a construção de corredores exclusivos. A interligação entre usinas para criar caminhos alternativos amplifica ainda mais os custos sem nenhum benefício, uma vez que a geração é simultânea devido a ausência de complementaridade entre rios isolados de mesmo regime sazonal. A interligação das grandes usinas representa um elevado investimento em um sistema que permanecerá ocioso sobre o qual incorrem juros durante o longo período de estiagem da Amazônia. MEIOS OU FINS? É um grande equívoco imaginar que grandes volumes de água representam energia, a menos que possam ser transformados em estoques de energia potencial em imensos reservatórios. Tecnicamente, é impossível domar os rios amazônicos. Mas, se a energia não pode ser armazenada na forma líquida (reservatórios de água), esta mesma energia imprevisível das enchentes pode ser armazenada na forma de estoques físicos de produtos acabados que a corrente elétrica é capaz de produzir. Neste caso, quem vai bancar o custo de fábricas paralisadas no período de estiagem? A produção de energia não é um fim em si mesmo: antes é preciso que haja mercado para os fins produzidos antecipadamente. Produtores independentes têm condições de complementar hidroelétricas através de termoelétricas a gás produzido localmente no período de estiagem. È o que vai acabar acontecendo se os corredores exclusivos não forem construídos a tempo.

VALE COMO AUTARQUIA


Como empresa autárquica está em perfeitas condições de estocar eletro intensivos (Fe e Al) com energia incorporada, em lugar de estocar energia potencial em reservatórios de água. Mas, quem vai correr os riscos de fábricas paralisadas por falta de energia no longo período de estiagem? USINAS NUCLEARES Conhecida há mais de um século, ainda não encontrou um meio eficiente de aproveitar a incrível energia contida no interior da matéria. Se todo o calor produzido pela reação nuclear pudesse ser utilizado diretamente no aquecimento — que constitui o maior componente do consumo dos países de clima frio — metade do petróleo hoje consumido no mundo todo deixaria de ser queimado. O maior beneficiário seria o próprio meio ambiente. Reúne tecnologia avançada de combustível com tecnologia ultrapassada de transformação. É limpa e não tem limitação física, pois o combustível — utilizado aos Kg — constitui uma fonte praticamente inesgotável de energia. Mas, é o “processo termodinâmico” da transformação subseqüente à reação nuclear que torna o custo de capital do conjunto maior ainda do que o custo operacional das térmicas a vapor convencional. A segurança nuclear apenas amplia os custos.

USINAS NUCLEARES


REATOR NUCLEAR Energia nuclear tambem não se presta à produção de trabalho mecânico. Primeiro, a energia química do ‘combustível’ tem de ser transformada em energia elétrica para posterior utilização, como qualquer usina elétrica. Tal como as grandes hidroelétricas têm pequenos custos operacionais e pouco polui. Não é por questão do rendimento energético em termos da relação insumo/produto. Ao final, o que realmente conta é o rendimento monetário, em termos de dinheiro, posto que, o combustível – utilizado aos quilos – custa menos do que as toneladas de combustível fóssil das termoelétricas convencionais a vapor. Países industrializados que ainda utilizam energia de acionamento vão ter de gastar mais pra produzir o mesmo efeito. O que não constitui obstáculo intransponível para países capitalizados. “as tarifas aos consumidores finais se tornam elevadas devido a uma significativa incidência de encargos e tributos na conta de energia elétrica....” Mas, nem é só o custo da geração de energia com os respectivos encargos os responsáveis pelo alto preço da tarifa. Nas 4 últimas usinas recém licitadas o lance vencedor ficou abaixo de 8 centavos/Kwhora ou 80 R$/Mwhora. Mesmo termoelétricas a gás que foram licitadas agora em 17 de agosto tem preço teto de 14 centavos ou 139 R$/Mwhora, que terão lances possivelmente menores. Só isso não justifica os preços pagos pelos consumidores de eletricidade em torno de 60 centavos (conta da Cemig). O quê torna elevada a tarifa é todo um sistema burocrático da operação do sistema que possibilita aditamentos de contratos e a cobrança de tributos em cascata pelas empresas concessionárias, verdadeira máquina arrecadadora de impostos e financiadora de campanhas, como acontece atualmente no ministério dos transportes.

PRESSÃO DOS DOIS LADOS


PRESSÃO DUPLA Por pressão do ministro e de sua colega, ao mesmo tempo presidente e diretora do conselho, Petrobras freia investimento do plano de expansão. O preço do combustível é apenas um dos itens que apenas mascara o índice de inflação, ao passo que preços reais de gasolina e álcool já constituem desestímulo ao consumo e compra de novos veículos, bem como da entrada dos importados. No entanto, o preço constitui a principal fonte de recursos da empresa que, assim vê frustrado seu novo plano de expansão. Enquanto países industrializados depositam esperanças na aventura temerária do “gás de xisto” para escapar ao estrangulamento dos fornecedores de gás e petróleo, o Brasil se dá ao luxo de reinjetar ou queimar gás natural, por falta de consumidores. Um dos poucos consensos existentes entre os especialistas de energia neste momento é o reconhecimento de que a crise energética, em particular a crise nuclear que se estabeleceu no Japão após o grande terremoto do dia 11 de março, tenderá a beneficiar o mercado internacional de gás natural como a melhor alternativa de curto e médio prazo para se restabelecer o fornecimento de energia elétrica no Japão. “investimentos em etanol, essa decisão vai contra a idéia exposta no Plano de priorizar a eficiência econômica e a rentabilidade”. A lavoura em si é bastante tecnológica. Mesmo o transporte inevitável de água e bagaço tem baixos custos correntes. O que mais pesa é o custo de capital das pesadas instalações cujo processo de transformação é arcaico: exige combustível mais eficiente (gás ou o álcool de sua própria fabricação), tanto na geração de energia elétrica das usinas de biomassa quanto em calor de processo por queima ineficiente do bagaço. Saudado como ponto positivo as pesquisas (com GE) no etanol como combustível para turbinas a álcool para melhorar o desempenho de usinas de biomassa pela co-geração, inclusive em calor de processo na destilação do álcool. “MANUTENÇÃO DOS PREÇOS DA GASOLINA E DO DIESEL CONGELADOS.... “ O álcool não tem condições de concorrer com preço da gasolina e diesel congelados por alguns anos. O processo industrial é mesmo arcaico e requer aperfeiçoamento. Nem mesmo a retirada de tarifas protetoras pelo congresso americano -- durante muito tempo considerado um “cavalo de batalha” -- constitui “tábua de salvação” para o etanol que não tem condições mínimas de abastecimento interno em curto prazo. Só uma disparada improvável no preço internacional do petróleo justificaria maiores investimentos.