domingo, 5 de julho de 2015

futuro : queima de algum combustível


Como, fatalmente toda energia do futuro passará pela queima de algum combustível, este fato não representa desvantagem para os países em desenvolvimento, ao contrário dos países industrializados que recorrerão à energia nuclear, mais cara, para obterem energia de aquecimento. Quando houver predominância de térmicas nos países em desenvolvimento, estes poderão afinal ficar livres do “critério de risco”, utilizado pelos planejadores na década de 50: as novas usinas hidroelétricas da Amazônia não precisarão estar condicionadas ao atendimento da carga em qualquer circunstância, como antes, quando o sistema foi exclusivamente hidroelétrico. Estas, bem como as atuais hidroelétricas, não serão mais responsáveis pelo atendimento das solicitações instantâneas da carga, que passará a ser suprida ocasionalmente pelas termoelétricas (de custo fixo mais baixo) que serão maioria. Tambem funcionarão a plena potência em todas as condições de vazão, a qual não precisa ser garantida. A “energia garantida” não precisará ser aquela do “Período Crítico”, mas a máxima que as hidroelétricas puderem produzir, em qualquer condição de vazão, limitada apenas à potência instalada de cada usina. Mesmo que não exista carga, esta poderá ser criada artificialmente para a produção sazonal, a baixo custo, de comodities metálicas de alto valor agregado, intensivas em energia elétrica (eletrólise a quente), tornando assim em instrumento eficaz de planejamento da produção industrial. A excessiva motorização das usinas hidroelétricas atuais, que foi motivo de muitas críticas, como “obra faraônica”, agora por motivo de mudanças históricas, felizmente encontra uma alternativa bastante promissora de utilização (“O Sistema elétrico do Brasil”, janeiro de 2005, do autor).

FORMAS ANACRÔNICAS DE ENERGIA As circunstâncias históricas mudam de tal forma que muitas soluções, consideradas anacrônicas, podem ser ressuscitados com sucesso, graças à nova tecnologia da biogenética. Assim, o aço brasileiro baseado em carvão vegetal, vista por muitos como anacrônica, compete bem nos mercados, atualmente, porque sua indústria está muito mais adiantada em relação à antiga tambem baseada em carvão vegetal, há muito abandonada pelos países industrializados, alem do que a tecnologia da biogenética favorece países tropicais. As árvores utilizadas na Suécia levam trinta anos para serem aproveitadas, enquanto as florestas cultivadas do Brasil são cortadas com seis anos. Os ganhos de produtividade das florestas cultivada no Brasil aumentaram em cinco vezes, pelo emprego de “clones” de eucalipto e melhores técnicas de cultivo e de aproveitamento do carvão vegetal. È um feito surpreendente que mostra o caminho a ser seguido pelos americanos e chineses que insistem nas grandes siderúrgicas a carvão mineral. O próprio “Gasogênio”, uma relíquia do passado da segunda guerra, pode ser ressuscitado como uma alternativa promissora para países pobres carentes de petróleo, mas ricos em biomassa.

Os países em desenvolvimento não precisam, necessariamente, repetir os mesmos passos dos países industrializados, evitando assim escolher alternativas que se tornaram inviáveis nestes países. Podem queimar etapas com melhores escolhas. Nem os países industrializados precisam, hoje, retroceder ao passado do industrialismo para proteger seus empregos. Conclusões de Malshal McLuhan, o papa da comunicação, referenciado por L.O. Lima em “Mutações em Educação segundo McLuhan”, 1982, 16º edição, Vozes RG: “Mas terá cabimento, num país subdesenvolvido, tomar-se como meta a reflexão vinda de (McLuhan) de uma civilização pós-industrial como a americana? Muitos pensadores estão convictos de que a reflexão prospectiva – dedução do statu quo dos países altamente desenvolvidos – é a melhor solução para os países subdesenvolvidos: assim, esses países evitarão incorrer (por ensaio e erro) nas soluções que hoje se mostram inadequadas naqueles”. Por outro lado, o processo civilizatório atual -- dentro das defasagens internacionais – mostra que é possível queimar etapas: a eletronização da Amazônia, por exemplo, é uma comprovação de que se pode antecipar as comunicações que (se tivessem que seguir as etapas históricas) passariam antes pelas estradas a pé, a cavalo, por água, estradas de rodagem, estradas de ferro e, finalmente pelo avião, antes de chegar as microondas e aos satélites”.

AQUECIMENTO SOLAR DIRETO Ironicamente, o aquecimento solar direto, que, sem dúvida, é a melhor forma de produzir calor, não está plenamente disponível para os que dele mais precisam os países de clima frio. Nos países tropicais, é desnecessário. A humanidade toda se sente ameaçada ante a possibilidade que venha faltar alimentos, terra, combustível. As preocupações são genuínas. Mas, devemos lembrar que a humanidade já se confrontou com problemas maiores no passado. A melhor maneira de afastar esses temores e ganhar tempo, até que novas tecnologias estejam disponíveis, é investigar como demanda e oferta de energia se combina no presente, bem como sua evolução futura. Cada país deve fazer a escolha das melhores alternativas de produção e consumo de energia, como aponta José Goldemberg no seu trabalho premiado “Energia para o Desenvolvimento”, de 1988, cuja principal conclusão é a seguinte: “Os países em desenvolvimento não deveriam trilhar os mesmos caminhos de desenvolvimento do Norte, mas buscar novas direções e assumir os riscos da inovação em áreas especialmente promissoras”. Em lugar de prever o futuro, países em desenvolvimento devem ler o passado, não para copiar, mas para não incorrer no erro de soluções que se tornaram inviáveis naqueles países, simplesmente porque as condições mudaram. Ao invés de planejar, os diversos países devem “garimpar” as alternativas promissoras próprias.

A NATUREZA LIMITADORA DOS PRINCÍPIOS A maneira mais eficaz de produzir calor é através da queima direta de combustível e, não por coincidência, o aquecimento é a maior demanda dos países industrializados de clima frio (58% nos Estados Unidos). O modo mais barato de produzir trabalho mecânico é a utilização dos potenciais hidroelétricos e a energia de acionamento é a maior demanda dos países em desenvolvimento (50%). Não é, por acaso, que os últimos potenciais inexplorados se encontrem nos países em desenvolvimento (700 Gw) tambem não é surpresa nenhuma que os combustíveis tenham se tornado escassos (fósseis e biomassa). Ambas as formas operam com elevados rendimentos tanto na produção (80%) quanto no consumo (cerca de 70%). As demais formas de energia têm rendimentos menores seja na produção e/ ou no consumo. O transporte, maior consumidor de combustível, é a segunda maior demanda dos países industrializados (34%) e a primeira dos países em desenvolvimento (50%). No entanto, o mundo todo continua utilizando o motor à explosão, um meio bastante ineficiente de produzir energia de acionamento. Alguns exemplos de utilização inadequada ou ineficiente: • Queimar bagaço de cana é uma forma eficaz de gerar “calor de processo”, mas, não é a melhor forma de produzir eletricidade (térmica a vapor). • A utilização de chuveiros elétricos é uma forma de esbanjar energia. Usar energia elétrica já produzida por termoelétricas convencionais ou nucleares para aquecer residências, que é maior necessidade dos países industrializados (58%), é uma forma cara e redundante de transformar calor em calor (ver figura 1).

USO FINAL, VETORES ENERGÉTICOS Entender o real significado de “economia no uso final de energia e escolha das alternativas promissoras e seus vetores energéticos”, cujo sentido parece claro por si mesmo, é de importância vital para compreender devidamente a que o professor Goldemberg está se referindo. A mensagem é a seguinte: por melhores que sejam os planos econômicos, estes não levam em conta o grande número de variáveis intervenientes, principalmente as condições históricas imprevisíveis e probabilísticas. “A pior forma de reacionarismo é não levar em conta o tempo e ficar estacionado em um passado, que não foi tão bom quanto idealizado hoje, e não pensar que as coisas mudam a todo instante. A característica mais importante de nossos dias é a ”mudança e a surpreendente velocidade com que verdadeiras mutações ocorrem”. Velhos padrões perderam o sentido, tudo é ao contrário. Só velhos princípios ainda permanecem. Por enquanto.

A BANCARROTA DOS ESTADOS NACIONAIS A atual crise vem demonstrando que os países não têm poder de ação relativamente às suas empresas transnacionais, cujos interesses se encontram mais fora de seus países de origem. Até países em desenvolvimento estão criando suas empresas Multiestatais (parece uma heresia): a Petrobrás, por exemplo. Os nacionalistas da Bolívia estão brigando com inimigos errados (Bush, que desocupa o cargo em dez meses), em lugar das “Trans”, como fizeram com relação ao Brasil, pervertendo o sentido do mercosul conforme fez o Índio e o bispo. O Mercosul, hoje, é uma mistura espúria de alucinados idealistas bolivarianos, todos iguais na pobreza e incapazes de constituir um bloco, impossível de acontecer. Aliás –como afirma o ditado caipira – “fazer sociedade com pobre, é o mesmo que pedir esmola pra dois”. Essa era a tônica dos discursos da época dos grandes planos do sistema elétrico brasileiro, cujos preâmbulos se iniciavam com as afirmações: “para que o PIB cresça 8% a oferta de energia deve antes crescer 10%”, dando a entender uma estreita correlação entre o crescimento do PNB e a demanda de energia per cápita.

O CULTO DO PLANEJAMENTO O desenvolvimento dos países industrializados de hoje aconteceu sob condições inteiramente diversas. Os conhecimentos da época eram escassos, de forma que, considerações de eficiência não eram relevantes (o problema não continha os clássicos limites das condições de contorno). As mudanças ocorriam em ciclos estáveis que cabiam dentro do prazo de vida de uma pessoa, no decorrer de um industrialismo, que durou cerca de 300 anos. Um exemplo: as locomotivas a lenha de 1950 eram verdadeiras fábricas ambulantes, devoradoras de lenha e a vapor, de rendimento baixíssimo para acionar pistões. Hoje, com as mudanças ocorrendo a ciclos cada vez menores, qualquer trabalho que leve mais de cinco anos, será obsoleto na publicação. “Não há como preparar países para enfrentar a globalização da economia: Não há um mundo previsível para o qual se possa preparar algum país. A todo o momento, através de retro-efeitos (feedback) a vida irá se transformando segundo uma lei geral de probabilidades (auto-regulação). A tecnologia, em sua permanente criatividade, levou de roldão a estabilidade cíclica dos sistemas simbólicos (arquiteturas puramente ideológicas)” (Malshall McLuhan). Foi a estratificação do industrialismo que criou a necessidade de planejamento. O planejamento foi mais um instrumento de imobilização da vida (desestimulação da criatividade) que fator de reequilibração permanente. Os planos tinham por objetivo evitar a invenção. Velhos conceitos, puramente ideológicos (livre mercado, estatais, liberalismo), perderam totalmente o sentido com o fim das ideologias e o fim da história A palavra de ordem agora é “cooperação espontânea”. Como planejar um futuro, vivendo dentro das mudanças, que são verdadeiras mutações acontecendo e das quais não damos conta no tumulto das mudanças profundas?

GRANDES PLANOS Entender como fontes e cargas estão relacionadas nas distintas fases que cada país atravessa, constitui a melhor maneira de por em prática os princípios que levam á formas eficientes de utilização da energia. Estas devem ser vistas com reserva porque o uso de energia não é o único fator de desenvolvimento e nem o desenvolvimento é um fim em si mesmo. Muito mais importante do que verificar a forte correlação histórica entre uso de energia e PNB é ver como os diversos países utilizam a energia. O Japão, por exemplo, utiliza energia de modo mais eficiente que os Estados Unidos. Enquanto este gasta três vezes mais energia (per cápita), seu padrão de vida (pib per cápita) não chega a ser o dobro. A China consome quase a mesma energia per cápita que o Brasil e, no entanto, seu PIB per cápita é apenas metade. O elevado crescimento da China não deve ser motivo de espanto. Países populosos naturalmente têm PNB elevado, o que não quer dizer nada. O crescimento segue uma tendência exponencial nas fases iniciais. Quando desenvolvidos tendem a saturação (logística). Então é perfeitamente natural que países pobres cresçam mais (exemplo da Albânia na antiga URSS). Há uma aceitação tácita de que energia produz desenvolvimento. A simples constatação de que os países ricos são aqueles de maior consumo de energia per cápita, reforçada pelas enormes disparidades, tem levado a crença de que basta por a disposição quantidades expressivas de energia para o desenvolvimento ocorrer, quase por milagre. Planos econômicos postos em prática por indistintos países capitalistas ou socialistas, liberais, nacionalistas ou estatais produziram resultados em circunstâncias históricas de crise. De fato o desenvolvimento ocorreu, mas não se pode dizer se foi consequência dos planos ou apesar deles. Os grandes planos de aproveitamento múltiplo de bacias: Tenessee Valley Authority (TVA) dos Estados Unidos, Qüinqüenais da antiga URSS, Plano de Metas do Sistema Elétrico Brasileiro, etc, influenciaram demasiadamente os planejadores da época do desenvolvimentismo. Alguns trouxeram consequência desastrosas, como consequência da dependência do petróleo e de capitais externos que levaram países em desenvolvimento ao comprometimento de suas exportações, com negociação de dívidas a juros variáveis (era Reagan). Alguns aprenderam a lição o que permitiu a condição favorável de hoje.

EFICIENCIÊNCIA NO USO


USO mais eficiente da energia Uma redução de 6% no uso total de energia no Japão e países da OCED foi acompanhada de um crescimento superior a 21% no PIB per cápita (46% no Japão). Nos Estados Unidos o descompasso foi mais impressionante: crescimento de 17% no PIB com queda de 12% no uso de energia per cápita. Estudos correlatos mostram que esta tendência vai continuar por muito tempo, não só pelas mudanças estruturais que estão ocorrendo na economia desses países, como pelas possibilidades de uso mais eficiente da energia. Países em distintas fases históricas têm formas diferentes de combinar fontes de energia e formas de uso mais adequadas e eficientes, regidas pelos princípios da termodinâmica. “O uso de energia Depende da composição das atividades que utilizam energia nas distintas fases históricas que cada país atravessa. Depende tambem das tecnologias empregadas no caminho escolhido para o desenvolvimento. A necessidade de um serviço prestado pela energia depende da eficiência no uso-final e seleção das fontes mais adequadas. Uma considerável variação, tanto no uso agregado de energia como na composição das fontes de suprimento de energia pode constituir a base de um determinado nível agregado de atividade econômica” (José Goldemberg).

CONDIÇÕES HISTÓRICAS Alguns (planejadores) chegavam ao extremo detalhe de relacionar de forma quantitativa essa idéia: “para que o PIB cresça 7%, o suprimento de energia precisa crescer a 10%”, como que predispondo suprimento com margem para garantir o crescimento do PIB per cápita. Essa era a tônica dos preâmbulos dos planos de desenvolvimento da década de 60. Outra crença em voga na época era de que o quadro permanecesse independente das circunstâncias históricas. Na verdade, é muito difícil perceber e reproduzir as condições históricas que produziram desenvolvimento em alguns países e outros não. A idéia aceita universalmente de que “o desenvolvimento requer grande aumento no uso de energia per cápita” ou “a aceitação tácita de que energia produz desenvolvimento” é apenas uma comprovação óbvia de um passado com abundância de recursos. Hoje, num quadro de escassez, não é mais imprescindível o grande uso de energia para se ter crescimento do produto bruto per cápita, como demonstram alguns países do Leste Asiático que conseguiram o mesmo objetivo sem recorrer ao aumento expressivo do uso de energia. Simplesmente “queimaram etapas” intermediárias dos países industrializados, ao ingressarem na fase da economia dos serviços, das tecnologias da informação e da eletrônica. Algo semelhante é evidenciado pelas mudanças estruturais ocorridas nos países industrializados, que tambem cresceram com diminuição do consumo de energia, entre 1975 e 1983, coincidindo com a experiência inédita de cooperação espontânea entre transnacionais e países em desenvolvimento.

“Planejar é muito perigoso”


RETROSPECTIVA DO SISTEMA ELÉTRICO BRASILEIRO “Planejar é muito perigoso” . Durante largo período prosperou a idéia de que o desenvolvimento fosse algo planejável através de elevados suprimentos de energia per cápita. Esta foi a essência dos grandes planos econômicos do século passado: planejar o futuro através da projeção de demandas crescentes verificadas no passado. (Planos Qüinqüenais, Planos de Metas, New Deal, etc.). Pode parecer evidente que a idéia de que o desenvolvimento requer um grande aumento do uso de energia per cápita, assim como não há como negar que o uso de energia pode variar no tempo, em virtude do uso intensivo das principais fontes disponíveis: petróleo e potenciais hidroelétricos. A idéia não é mais tão evidente como foi no passado de abundância de recursos, nem as disparidades são tão acentuados.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

VITÓRIA DE PIRRO


ACONTECEU O ÓBVIO A manutenção do preço da gasolina constitui um sério obstáculo a produção de álcool hidratado. O etanol não consegue competir com o combustível fóssil - balizado pelo governo - e acaba sobrando nas bombas. “O governo deveria destravar o preço da gasolina e deixar os preços flutuarem. Só assim o etanol passaria a ser competitivo. Hoje, o etanol está amarrado ao preço da gasolina para o controle da inflação.. Este não tem condições de concorrer com preço congelado da gasolina por tanto tempo. Nem mesmo a queda da sobretaxa – durante muito tempo um “cavalo de batalha” – constitui “tábua de salvação” para o etanol brasileiro que não tem condições mínimas de abastecimento interno no curto prazo. Ironicamente acabou ocorrendo por decurso de prazo, em um momento delicado para a agroindústria canavieira porque, infelizmente, não existe álcool anidro suficiente para suprir a grande quantidade de carros flex que migraram para a gasolina com preço congelado desde 2009. E o que é pior: o Brasil acabou tendo de importar etanol de milho mais caro devido a retirada simultânea do subsídio. Nos próximos 4 anos o álcool estará comprometido com o aumento da importação de gasolina, mesmo que seja reduzido o percentual aditivado. NADA DE NOVO Qualquer medida só produzirá efeito no longo prazo. A recomposição da lavoura de cana é lenta e requer prazo biológico para plantio e maturação e a construção de novas destilarias, sabidamente, é demorada. O fim do subsídio e queda concomitante da sobretaxa favorece duplamente o álcool anidro brasileiro, a saber, no longo prazo. A queda da sobretaxa já tinha sido aprovada no senado, dependendo de aprovação da câmara. Tal como acontece no Brasil (medidas provisórias), aconteceu o inesperado: congresso entra em recesso sem renovar barreiras. Isto é o que, eufemisticamente, se pode chamar de “desaprovação por decurso de prazo. Tudo aquilo que foi reclamado nos últimos 31 anos, de repente acontece e, infelizmente, o Brasil não tem álcool para exportar. Ao contrário vai importar etanol de milho mais caro devido a queda simultânea do subsídio. VITÓRIA DE PIRRO De tanto fazer mágicas com preço congelado da gasolina o feitiço acabou se voltando contra o aprendiz: Acabou inviabilizando – por alguns anos – o álcool hidratado e o carro “flex”, que são criações genuinamente brasileiras, tal como a “jaboticaba”, que só dá no Brasil. Resta o álcool anidro aditivado que é muito mais importante e vale mais do que a parcela correspondente da gasolina substituída pelo fato de eliminar contaminação por chumbo muito mais poluente (Chumbo Tetraetila, estão lembrados?). Um problema ambiental para o qual existe um mercado mundial muito mais promissor e tão grande que o Brasil não conseguirá atender sozinho. Mas, tem tecnologia e conhecimento bastante para ajudar outros países mais pobres a produzi-lo. A queda de barreiras ao álcool anidro brasileiro acabou acontecendo mais por pressão dos contribuintes americanos do que por interferência da presidente. Para o consumidor americano a manutenção da sobretaxa se tornou inócua, dada a impossibilidade técnica de suprimento por etanol brasileiro. Até que enfim concluíram pelo óbvio.

PORTEIRAS ESCANCARADAS


O APRENDIZ de FEITICEIRO A queda da sobretaxa ao álcool brasileiro ocorreu mais por pressão do contribuinte do que por ação efetiva do governo brasileiro. O congresso americano passou batido e a sobretaxa caiu automaticamente por decurso de prazo. E nem com isso aprendemos a lição: continuamos subsidiando diesel, álcool, e – pasmem! – a própria gasolina dos carros flex incentivados. E o pior: maior consumo de gasolina implica em maior consumo de álcool aditivado obrigatório (25%). De exportador de álcool anidro passaremos a importador de etanol de milho, doravante encarecido pela eliminação simultânea do subsídio ao consumidor americano. De tanto fazer mágica, o feitiço acabou virando contra o feiticeiro tal como na fábula. Conseguimos inviabilizar, por alguns anos, a produção do álcool hidratado e o carro flex, criação genuinamente brasileira, tal como a jaboticaba que só dá por aqui. O que era um sonho, virou pesadelo. O etanol não consegue competir com o combustível fóssil - balizado pelo governo - e acaba sobrando nas bombas. “O governo deveria destravar o preço da gasolina e deixar os preços flutuarem. Só assim o etanol passaria a ser competitivo. Hoje, o etanol está amarrado ao preço da gasolina para o controle da inflação”. Com o fim das barreiras o Brasil passa a desfrutar de melhores condições para exportar etanol de cana, mas ironicamente num momento em que a produção nacional está em baixa. A quebra da safra de cana-de-açúcar este ano é estimada em 10%, só se prevendo uma recuperação plena a partir de 2014. Canaviais precisam ser renovados e ampliados e isto leva anos. Agricultura requer prazos biológicos, por isso é lenta por sua própria natureza. Novas usinas não podem surgir dum ano para outro. Exige planejamento antecipado. O que acabou foi álcool hidratado e o carro flex, criação genuinamente brasileira, como a jaboticaba que só dá por aqui. Muito mais importante é o anidro, de cana ou de milho, por isso compensa, mesmo com preço maior.

ESTOQUES REGULADORES


Produtores americanos já não temem a concorrência do etanol procedente do Brasil. Estão cientes do impulso que a Lei de Energia dos EUA dá ao consumo de biocombustíveis. Um acordo entre os dois maiores produtores será bastante viável uma vez que a produção de um é complementar a do outro, desta forma, dispensando estoques reguladores (de milho e etanol). Não há dúvida, como observam os produtores, de que a nova posição americana é um poderoso incentivo para o aumento da produção brasileira de etanol. Estima-se que serão necessários investimentos da ordem de US$ 156 bilhões até 2020, com a construção de 120 destilarias, para possibilitar a exportação de 13,5 bilhões de litros de etanol para o mercado americano. OPORTUNIDADES As oportunidades estão abertas a todos. Há um mercado interno a ser reconquistado, aquele que se perdeu por causa da baixa competitividade do etanol e da menor oferta do produto. Embora continue elevada a proporção de veículos novos flex nas vendas para o mercado interno, estima-se que,nos últimos dois anos, o volume de carros abastecidos com etanol diminuiu de 60% para 35% da frota. E há, agora, o imenso mercado americano que se abre para os produtores de outros países, a começar pelo Brasil. São possibilidades que investidores nacionais e estrangeiros certamente considerarão em seus planos para os próximos anos. Uma aberração. É o fim da picada: exportar etanol de cana e importar etanol de milho. Duzentos milhões de Hectares de pastagens degradadas estão disponíveis para plantação de cana, soja e milho sem que seja necessário devastar a Amazônia para criação de gado solto. Se o etanol de milho não é mais viável nos Estados Unidos – e a FAU pede a sua proibição – só agora estão percebendo que pode ser viável no Brasil em locais distantes: – Utiliza a mesma instalação ociosa da fabricação de cana: moagem, fermentação, caldeira, as dornas e colunas. – Evita o passeio inútil do milho para os portos e do etanol distante. – Pode ser processado no mesmo ano em até duas safras sem necessidade de estoques (milho safrinha). – Pode ser consumido no mesmo local de produção, evitando o transporte de etanol. – A colheita deixa restos na lavoura e o transporte do grão é muito mais barato do que o transporte de água e bagaço contidos na cana. De acordo, em parte, com a entrevista de José Luiz Oreiro, mas não totalmente pelas mesmas razões: o Pre-sal é tão volumoso quanto a quantidade e porte das usinas e reservatórios projetados para a Amazônia. Sou cético também com pré-sal e o aquecimento global antropogênico. Ao meu ver, uma seita a mais como tantas outras seitas religiosas.

ATÉ ETANOL DE MILHO?


ATÉ DE MILHO? Não chega a ser irônico que o etanol de milho – condenado de maneira veemente por 31 anos de barreiras – se torne viável no Brasil como única solução de imediato para o momento? Uma dupla economia no transporte inútil de milho e álcool, por estradas esburacadas do interior brasileiro. Álcool de arroz já é produzido nas cadeias. E ótima oportunidade para a produção local de combustível e energia térmica distribuída. E O excedente de milho que não vai ser utilizado nos EUA para fabricação de etanol pressionará certamente o mercado provocando baixa no preço de commodities agrícolas, o que constitui oportunidade para o esvaziamento dos estoques ‘ao tempo’ nos lugares distantes do centro-oeste e estimulo para o milho safrinha que está sendo plantado. De modo emergencial, as usinas devem priorizar ainda mais a produção álcool anidro, ao menos para a mistura obrigatória – agora rebaixada para 20% – e de açúcar, que está remunerando melhor no mercado externo, e deixar de fazer o etanol hidratado (usado nos carros flex) até o setor se reestruturar. Há uma estreita correlação entre preço de petróleo e commodities, inclusive etanol, uma quase commodity. Se o preço do petróleo se eleva, também sobem os produtos que tem o petróleo como insumo. O álcool é um carburante ordinário quando comparado à gasolina. Requer petróleo como insumo e “pega carona” no diesel subsidiado utilizado para baixar preço dos alimentos. Sua principal virtude está na propriedade antidetonante e daí sua importância quando adicionado à gasolina, mesmo em proporção mínima de 10%. Os dois maiores produtores de etanol anidro, EUA e Brasil, mal darão conta do suprimento mundial da mistura mínima de 10% nas próximas 2 décadas. SEM SAÍDA Alem de pagar mais pelo etanol de milho – agora sem os subsídios – o Brasil vai ter de importar maior quantidade devido à concorrência na exportação dos produtores nacionais, estimulados pelo maior preço pago nos EUA, conforme explica o professor Adriano. È o fim da picada! Durante 1 século a população do mundo inteiro foi severamente castigada pela contaminação por chumbo oriunda da adição do “chumbo Tetraetila” e, ainda hoje, alguns países pobres continuam sujeitas a este contaminante por não terem o álcool substituto. È o que acabará acontecendo nas regiões pobres do Brasil se o preço da gasolina continuar inalterado “As exportações de etanol para os Estados Unidos subiram de 313,4 milhões de litros em 2010 para 663,925 milhões. O aumento foi impulsionado pelo prêmio pago pelos Estados Unidos para o etanol avançado, categoria em que o etanol de cana-de-açúcar está incluído, por ter ciclo de emissões reduzidas em relação ao álcool de milho” (do Isto é Dinheiro). E, especialmente, por evitar contaminação por chumbo. Com o prêmio pago pelo produto brasileiro, o Brasil pôde e poderá exportar etanol de cana e importar etanol de milho e ainda ganhar um prêmio na operação. Em 2012, as exportações para os Estados Unidos poderão crescer ainda mais com a queda da tarifa de importação e do prêmio pela qualidade.

DA EUFORIA À DEPRESSÃO


Lenha nova para velha fornalha: a febre dos agrocumbustíveis. Sergio Schlesinger, em 2007. Resumo de manchetes: –Segundo o IEA: “o Brasil poderá ter uma produção de 26 bilhões de litros de álcool em 2015/16 numa área de cana o dobro de 2007/2008”. – Segundo a AIE: “Em 2030 o mundo estará consumindo cerca de dez vezes mais agrocumbustíveis do que nos dias de hoje. E a produção brasileira de agrocumbustíveis deve crescer mais rapidamente que a de outros países, chegando a um terço do total mundial”. – Segundo o BNDES: “O Brasil pode contribuir para uma meta de 10% de substituição da gasolina no cenário mundial (220 bilhões de litros). Terá que multiplicar por sete sua produção de etanol, para chegar a algo em torno de 110 bilhões de litros (50%). Os canaviais teriam que ocupar 28 milhões de hectares equivalentes à soma daquelas ocupadas pela soja e pela própria cana, no Brasil, em 2007. Quem poderia imaginar que em menos de 4 anos a situação fosse completamente distinta. BOMSENSO PREVALECE Em meio à euforia, Benedito Rosa do Espírito Santo, pesquisador do Ipea adverte que o nascente mercado externo ainda é “instável” e sofrerá “mudanças espetaculares” no médio prazo com o domínio da tecnologia de fabricação de etanol a partir de celulose. “Se houver uma crise no meio do caminho, vamos ter excedentes enormes e um modelo de alto grau de vulnerabilidade. Ora, as previsões falharam redondamente nesta passagem de 2011 para 2012. Parece que o professor Benedito Rosa estava adivinhando o tamanho da crise que estava por chegar em 2008 e seguintes anos.

ÁLCOOL: DE PROMESSA A PROBLEMA


“Substituir álcool por gasolina afastaria o problema de segurança do abastecimento, que foi o motivo do fim do carro a álcool puro a partir do final da década de 1980”. Mas, O problema de segurança não é eliminado, apenas transferindo para o abastecimento de gasolina. Gasolina subsidiada gerou um salto de consumo de 17% em 2010”, quando foram importados 3 milhões de barris a preço mais elevado. Por Luciano Losekan. coisa que praticamente não ocorreu nos últimos anos. Se a percentagem aditivada fosse reduzida com antecedência, poderia evitar a pressão altista sobre os preços do etanol anidro que é o mais importante. Ou mesmo um acordo entre os 2 maiores produtores (~80%). Mesmo mais caro do que a gasolina valeria a pena (por) reduzir a poluição local e contaminação por chumbo (Chumbo tetraetila). A produção de etanol anidro, impulsionada pelas vendas de gasolina, respondeu pela maior parte desse crescimento. A perspectiva para a próxima safra é de redução do total e do etanol hidratado. Só um adendo, Hugo: o Brasil foi o primeiro país do mundo a abolir o uso do chumbo-tetraetila na gasolina e isso, justamente por causa do etanol. Alem disso, Otto, ocorreu um fenômeno curioso: O aumento na exportação foi impulsionado pelos prêmios pagos pelos Estados Unidos para o etanol avançado (de cana). Com isso, em 2012 o Brasil pode exportar etanol de cana e importar etanol de milho e ainda ganhar um prêmio na operação. Praticamente o dobro do subsídio: US$1/por galão. Em 2012 As exportações para os Estados Unidos recomeçam com nova vantagem: a queda da tarifa de importação que – por decurso de prazo – o congresso se esqueceu de renovar. Reconhecendo o equívoco do protecionismo o congresso americano derruba as últimas barreiras sobre o etanol importado e – ainda de quebra – oferece prêmio sobre o etanol de cana mais avançado: praticamente o dobro do subsídio: US$1/por galão. Enquanto que por aqui o governo brasileiro insiste no subsídio à gasolina e diesel para conter a inflação. Pior ainda, a incidência de impostos CIDE,PIS E COFINS é invertida: pesa mais sobre o combustível mais avançado com prejuízo para a poluição local das grandes cidades.

A CRISE DO ÁLCOOL


O PATINHO FEIO A produção de álcool carburante só subsiste como anidro antidetonante acrescido à gasolina e graças aos eternos subsídios ao diesel para acionar tratores e caminhões do agronegócio, dos quais o álcool pega uma carona na lavoura de cana. Não tem lógica usar um combustível para produzir parte do outro em condições arcaicas. O álcool usa diesel na parte agrícola e no transporte de 90% de água que vai ser extraída utilizando bagaço úmido de valor desprezível até para oleiros. Não basta ter rendimento energético positivo que representa apenas gastos correntes. È preciso ter em conta os elevados custos de capital sobre o qual incidem juros na entressafra, ocasião em que as usinas permanecem ociosas. O mesmo acontece com as usinas de biomassa: Não compensa queimar bagaço apenas porque é gratuito: o processo termodinâmico é arcaico e intensivo em capital. A CRISE DO ÁLCOOL Hoje, não é mais a concorrência pela terra em detrimento da produção de alimentos – já reconhecida pelos países industrializados – mas com a destinação do próprio açúcar como alimento e dos fortes estímulos decorrentes da queda das últimas barreiras e substituição dos subsídios por prêmios dobrados aos consumidores do etanol de cana. No exterior a exigência de frações mínimas de bicombustível adicionado e os custos locais muito mais elevados deverão sugar o álcool do nosso mercado.

CRISE DE ALIMENTOS


A CRISE DO ÁLCOOL Hoje, não é mais a concorrência pela terra em detrimento da produção de alimentos – já reconhecida pelos países industrializados – mas com a destinação do próprio açúcar como alimento e dos fortes estímulos decorrentes da queda das últimas barreiras e substituição dos subsídios por prêmios dobrados aos consumidores do etanol de cana. No exterior a exigência de frações mínimas de bicombustível adicionado e os custos locais muito mais elevados deverão sugar o álcool do nosso mercado. CRISE DE ALIMENTOS Até mesmo os grãos, milho e soja – eufemisticamente considerados alimentos – dependem de subsídios ao diesel para que sejam viáveis. O grão não é, tipicamente, um alimento do ser humano. Ele os consome em pequenas quantidades junto com outros alimentos. É utilizado pelos países importadores na alimentação de pequenos animais para produzir carne, um alimento protéico. Países populosos dependem dos grãos não como alimento diretamente, mas para engorda de bois precoces confinados que consomem grãos em grande quantidade, mesmo sendo ruminantes. Nos países populosos o problema crucial é de terra suficiente para cria de gado bovino. Por isso que comodities estão em alta constante, acompanhando os preços do petróleo. Mas isso não vai durar para sempre.